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| Pb. Junio - Congregação Boa Vista II |
TEXTO ÁUREO
"Porque hás de ser sua testemunha para com todos os homens do que tens visto e ouvido." (AT 22.15)
VERDADE PRÁTICA
Todo aquele que tem um encontro real com Cristo é chamado a testemunhar dEle com fidelidade, mesmo em meio à oposição e ao sofrimento.
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: Atos 21. 27-28, 30-31, 33, 39-40; 22. 1-7
INTRODUÇÃO
A o retornar a Jerusalém após a sua terceira viagem missionária, Paulo e os seus amigos foram recebidos de muita boa vontade, um testemunho da crescente reputação do apóstolo e da gratidão que sentiam pela generosa oferta que eles estavam trazendo das igrejas (At 24.17; Rm 15.25-27; 1 Co 16.1-4; 2 Co 8.13,14; 9.12,13). Paulo não tinha esquecido a recomendação da igreja de Jerusalém, expressa alguns anos antes, para que se lembrassem dos pobres (Gl 2.10). Os anciãos de Jerusalém nunca teriam imaginado que eles seriam beneficiários da obediência de Paulo à sua recomendação, muito menos que o sustento viria de igrejas predominantemente gentílicas. Como isso deve ter unido os segmentos judeu e gentio da Igreja!
Obviamente, essa era uma reunião importante, uma vez que todos os anciãos estiveram presentes. Eles ouviram o relatório minucioso de Paulo sobre o que, pelo seu ministério, Deus fizera entre os gentios (At 21.20). Muitos judeus, entretanto, estavam preocupados com rumores de que ele ensinava os judeus a abandonarem a Lei de Moisés e as tradições (At 21.20,21). Para demonstrar que ele não era contra a Lei e evitar escândalo, os líderes da igreja Tiago e os anciãos aconselham o apóstolo a participar de uma cerimônia pública de purificação no Templo, baseado no voto de nazireado.
Eles pensavam que esse ato iria sufocar os falsos rumores que circulavam a respeito de Paulo de que ele estava gradativamente minando a Lei Mosaica. Por deferência aos líderes da igreja, Paulo concordou com a proposta deles para demonstrar respeito pelas tradições judaicas (Rm 9.1-5), para evitar escândalo entre os judeus cristãos (Rm 14.19) e para testemunhar Cristo com sabedoria (1 Co 9.20; Gl 2.5). Paulo foi agredido em Jerusalém e preso pelos judeus que o acusaram falsamente de ter profanado o Templo, introduzindo gregos e ensinando a abandonar a Lei de Moisés (At 21.27–22.29). Durante o aprisionamento, Paulo fez um discurso de defesa aos judeus, relatando a sua conversão no caminho para Damasco e a sua experiência no Templo. A multidão impediu-o de falar, forçando o comandante romano a levá-lo para a fortaleza, onde o apóstolo deu o seu testemunho para o povo.
John Stott explica que, após as três épicas viagens missionárias, Lucas descreve os cinco julgamentos enfrentados por Paulo. O primeiro foi diante de uma multidão de judeus na área do templo (capítulo 22); o segundo, diante do supremo conselho dos judeus em Jerusalém (capítulo 23); o terceiro e o quarto em Cesareia, diante de Félix e Festo (capítulos 24 e 25); e o quinto, também em Cesareia, diante do rei Herodes Agripa II (capítulo 26)
I. A PRISÃO DE PAULO EM JERUSALÉM
1. A conspiração dos judeus e a falsa acusação de profanação do templo ( At 21. 27-30) - O propósito de Paulo era o de abrandar os judeus cristãos, ao ser visto na prática da lei. Todavia, os judeus da Ásia, vendo-o no templo (v. 27), provocaram a situação calamitosa que os líderes cristãos esperavam evitar. Perto do fim dos sete dias da purificação (veja a nota sobre 24:11), viram-no templo. Haviam-no visto antes na cidade, ao lado de Trófimo e, sabendo ser este um gentio efésio, concluíram que Paulo o trouxera, bem como toda a delegação gentílica (observe o plural, os gregos, v. 28) no templo, isto é, aos lugares santos onde nenhum gentio tinha permissão de entrar (v. 29; veja as notas sobre 3:2). (Esta era uma ofensa para a qual o Sinédrio recebera autorização dos romanos para aplicar a pena de morte.
Veja Josefo, Guerras 6.124-128). Assim foi que esses judeus prenderam Paulo, gritaram essa acusação à multidão e acrescentaram outra, que ele por todas as partes ensina a todos a ser contra o povo, contra a lei e contra este lugar (v. 28; cp. 6:13). Sublevaram-se as emoções. Os judeus asiáticos não eram inclinados a investigações cuidadosas. Na verdade, pelo que sabemos, Trófimo nem sequer estava no templo, menos ainda no santuário santíssimo. Entretanto, Paulo era inimigo deles. Bastava-lhes isso. Fosse como fosse, a segunda acusação constituía o cerne da questão (cp. 24:17s. quanto à versão do próprio Paulo do incidente).
A gritaria excitou a multidão. A confusão passou a reinar. É provável que toda a cidade seja exagero de Lucas (veja a disc. sobre 9:35), mas o pátio externo do templo com efeito era o centro da cidade, e deveria estar em tumulto. Paulo teria sido agarrado e arrastado do pátio interno (como supomos) e levado ao pátio dos gentios. Parece que a intenção era matá-lo naquele momento, ali mesmo. Tão logo o povo saiu dos pátios internos, suas portas foram fechadas (pela polícia), talvez para impedir que Paulo se refugiasse no santuário, ou talvez para evitar que ficasse mais imundo ainda, visto que a multidão estava prestes a acrescentar um assassinato à alegada profanação da parte dos gentios (cp. 2 Reis 11:4-16; 2 Crônicas 24:21).
2. A divisão do templo em Jerusalém - O segundo Templo de Jerusalém nos dias do apóstolo Paulo era o grandioso complexo reconstruído e ampliado por Herodes, o Grande (73–4 a.C.). Com uma estrutura imponente e vasta, com terraços amplos e muros de contenção, era o maior santuário do mundo antigo, sendo dividido em vários átrios retangulares concêntricos (At 3.2): um átrio dos gentios, aberto a todos; um átrio só para mulheres; um átrio de Israel (ou dos homens), para judeus circuncidados; um átrio dos sacerdotes, com o Altar de Sacrifícios; o Lugar Santo e o Santo dos Santos, acessíveis apenas aos sacerdotes e sumo sacerdote, respectivamente, marcando a hierarquia e santidade e sendo palco de grandes atividades religiosas e conflitos.
O átrio dos gentios (pátio externo) era a parte mais ampla e externa, onde todos os gentios e não judeus podiam entrar, realizar transações (como a venda de animais para sacrifícios) e sentir a presença do Templo, só que sem penetrar nas áreas mais sagradas. Foi aqui que Jesus expulsou os cambistas (Mt 21.12,13). Os gentios tinham licença para penetrar no átrio externo, mas eram impedidos de proceder mais além, para o “átrio das mulheres”, e muito menos para o “átrio de Israel”, por uma barreira baixa que ostentava avisos em grego e latim com os dizeres: “Nenhum estrangeiro pode atravessar a barricada que cerca o Templo e o seu recinto. Qualquer pessoa presa ao assim fazer será culpada pela sua 71 morte que se seguirá”. É justamente essa barreira que está por trás da acusação contra Paulo em Atos 21.28, a de ter introduzido um gentio no Templo.
O átrio das mulheres era uma área interna acessível exclusiva somente aos judeus (homens e mulheres). Era o local mais avançado do Templo que as mulheres podiam frequentar, bem como um local de orações e ofertas (Lc 21.1-4). A oferta da viúva pobre aconteceu aqui.
O átrio de Israel (Pátio dos homens) era mais interno e só permitido aos homens judeus que estivessem cerimonialmente puros. Aqui eles podiam trazer as suas ofertas e aproximar-se mais do altar.
O átrio dos sacerdotes era uma área restrita apenas aos sacerdotes levitas. Continha o Altar dos Holocaustos (sacrifícios), a Pia de Bronze e utensílios do culto.
O Lugar Santo (Kodesh) era acessível aos sacerdotes e continha o Candelabro, a Mesa dos pães da Proposição e o Altar de Incenso, iluminado pela luz do candelabro.E o Santo dos Santos (Kodesh HaKodashim) é o lugar mais sagrado, separado por um véu espesso, onde habitava a glória de Deus, sendo acessível apenas ao Sumo Sacerdote uma vez por ano (no Yom Kippur).
O fato de que os romanos estavam dispostos a ratificar sentenças de morte, até sobre os próprios romanos, conforme parece, pela quebra desse regulamento do Templo, indica quão significante era e quanta emoção vinculava-se às ideias judaicas da pureza do Templo. Não é estranho que a acusação feita contra Paulo levasse à semelhante explosão de sentimento.
3. A intervenção das autoridades romanas ( At 21. 31-36) - O comandante Cláudio Lísias foi informado do motim e imediatamente se dirigiu à praça do templo com sua soldadesca, abortando a intenção dos judeus. Marshall diz que não levaria muito tempo para a notícia do distúrbio chegar à guarnição romana na cidade. Localizada na fortaleza Antônia, quartel-general da força de ocupação romana, ao noroeste do templo, era suficientemente alta para manter vigilância constante sobre os distúrbios embaixo, e dois lances de escadas a ligavam com o átrio dos gentios.
A guarnição em Jerusalém era uma coorte, que tinha nominalmente 760 soldados da infantaria e 240 da cavalaria, todos comandados por um oficial romano. Os judeus cessaram de espancar Paulo quando o comandante mandou acorrentá-lo, para saber quem era e o que havia feito o prisioneiro. Nesse ínterim a multidão ensandecida gritava de forma desordenada sem saber por que vociferava contra o apóstolo.
Por essa razão o comandante mandou recolher Paulo à fortaleza para não ser despedaça do pela multidão tresloucada, que clamava pela sua morte. A multidão gritava mata-o, da mesma forma que, quase trinta anos antes, outra multidão gritara contra outro prisioneiro (Lc 23.18). Lucas apresenta as autoridades romanas como amigos do evangelho, não como inimigos. O primeiro gentio a se converter foi Cornélio, um centurião romano (10.1-48). O primeiro convertido das viagens missionárias de Paulo foi Sérgio Paulo, o procônsul romano de Chipre (13.12). Em Filipos os magistrados romanos até pediram desculpas a Paulo e Silas pelo espancamento e pela prisão (16.35- 40).
Em Corinto, Gálio, o procônsul da Acaia, recusou-se a ouvir as acusações dos judeus contra Paulo (18.12-17). Em Efeso, o escrivão da cidade declarou inocentes os líderes cristãos (19.35-41). Agora, em Jerusalém e Cesareia, Cláudio Lísias, o comandante militar, coloca Paulo sob sua proteção.698 Voltando ao paralelo entre Jesus e Paulo, tanto Pilatos no julgamento de Jesus como Cláudio Lísias no julgamento de Paulo consideraram-nos inocentes. Assim como Lucas dedicou grande parte de seu evangelho para tratar da prisão e morte de Jesus, também dedicou boa parte de Atos para narrar a prisão e a defesa de Paulo.
O livro de Atos termina mostrando Paulo preso em Roma. Dessa primeira prisão Paulo foi solto e declarado inocente. De acordo com John Stott, Lucas faz questão de demonstrar que, aos olhos da lei romana, Jesus e Paulo eram inocentes, dirigindo a atenção para o antecedente que estabeleceu a legalidade da fé cristã, como resultado de seus julgamentos.
II. A OPORTUNIDADE PARA TESTEMUNHAR
1. Paulo pede licença para falar ao povo ( At 21. 37-40) - Com esta seção, começa a narrativa longa da prisão e dos julgamentos de Paulo, tanto em Jerusalém como em Cesareia, e da sua viagem para Roma, a fim de enfrentar o tribunal supremo.700 Ao ser levado para a fortaleza, Paulo pede permissão para falar à multidão amotinada. O comandante imaginava que Paulo fosse o egípcio que havia aliciado quatro mil sicários. Paulo responde declarando ser um judeu natural de Tarso, importante província do Império. A multidão silencia, e Paulo dirige-se a seu povo em língua hebraica.
Quando Paulo estava prestes a ser carregado para o forte de Antônia, dirigiu-se ao comandante, que ficou um tanto surpreso pelo fato de o prisioneiro falar-lhe em grego, embora esta fosse uma língua de uso comum no mundo antigo. Ele havia presumido que Paulo fosse um palestino destituído de educação.
Este versículo exprime uma segunda conjectura, e não (como NIV supõe) a surpresa porque a primeira conjectura estava errada. O texto grego não apresenta uma pergunta negativa, mas uma pergunta que aguarda uma resposta positiva: "Você deve ser, então, aquele camarada egípcio..., não é? " Trata-se do egípcio sobre o qual Josefo escreveu em duas ocasiões, um "falso profeta", que mais ou menos em 54 d.C. liderou trinta mil homens ao monte das Oliveiras a fim de assaltar Jerusalém. O procurador Félix havia ordenado um ataque ao monte, mas o egípcio fugira, deixando a "maioria" de seus comandados ou capturados ou mortos (Guerras 2.261-263; veja a disc. sobre 23:34 quanto ao procurador Félix). No segundo relato de Josefo deste incidente, escrito cerca de quinze anos mais tarde, declara ele que apenas quatrocentos foram mortos e duzentos feridos (Antigüidades 20.167-172). Estes números estão mais próximos da realidade. Josefo tem a tendência a exagerar nos números, o que explica a diferença entre os trinta mil e a estimativa do comandante, de os seguidores do egípcio serem cerca de quatro mil homens. Ele os chama de "os quatro mil", como se esse número fosse bem conhecido. Descreve-os ainda como sendo sicarii (homens da adaga", do latim sica), que era o termo aplicado aos grupos de judeus nacionalistas militantes bastante ativos por essa época. Parece que Josefo faz distinção entre os sicarii e os seguidores do egípcio, mas para o comandante romano teriam todos parecido a mesma coisa. Agora, o comandante pensa que o egípcio havia voltado, e que havia sido apanhado pelo povo como impostor (veja Hanson, p. 9, quanto à "espantosa precisão de Lucas ao relacionar sua história à história contemporânea").
Uma surpresa adicional ocorreu quando Paulo se identificou como judeu, natural de Tarso (v. 39) — que o comandante não o tomasse por gentio, e culpado de profanar o templo; e de Tarso, para fazer boa distinção com o rebelde do Egito. O fato de Paulo ser de Tarso não implicava que fosse simultaneamente cidadão romano (cp. 22:25). Por ora, Paulo está apenas tentando esclarecer que ele não era o homem que julgavam que fosse. A seguir, ele perguntou se lhe era permitido falar ao povo. A permissão lhe foi concedida e, aquietando-se o povo, o apóstolo lhes falou em "hebraico", ou talvez em aramaico, de pé nos degraus do forte de Antônia (v. 40; veja a disc. sobre 13:16 quanto ao sinal feito com a mão). Paulo objetivou ganhar a atenção do povo, ao dirigir-lhes a palavra naquela língua e, se possível, ganhar-lhes o coração (cp. Romanos 9:1-3; 10:1). O episódio todo tem sido questionado por causa de duas coisas: primeiro, teria sido fisicamente possível a Paulo falar? E segundo: ter-lhe-ia sido concedida a permissão para falar? Não existem evidências, contudo, de que Paulo teria sido ferido no tumulto barulhento, e embora pareça estranho que o comandante lhe tenha permitido falar ao povo, a mera estranheza não é razão para negarmos a ocorrência do fato.
2. O uso da língua hebraica para ganhar atenção ( At 22. 1-2) - Paulo usou uma estratégia, estabelecendo uma conexão cultural para conectar-se com os ouvintes usando a língua hebraica, mais precisamente o aramaico, a língua que os judeus mais valorizavam, para mostrar identidade e ganhar a atenção da multidão, compartilhando a sua trajetória. Poucos judeus da Diáspora conseguiam falar a língua da Palestina (At 6.1), e alguém que falasse esse idioma merecia ser ouvido (At 22.2). Paulo demonstrou respeito pela sua cultura e tradição, permitindo que ele apresentasse a sua defesa. Com isso, ele garantiu que todos os presentes pudessem entender a sua defesa diretamente sem a necessidade de um intérprete ou a barreira que o grego (língua franca do Império Romano) poderia representar para alguns membros da congregação mais conservadores.
A mudança para o hebraico/aramaico, a língua dos textos sagrados e do ensino rabínico, ajudou a estabelecer a autoridade de Paulo como um judeu devoto e instruído, não apenas um forasteiro ou um agitador anti-judaico, como talvez o percebessem. Esse gesto demonstra sabedoria e coragem, usando a sensibilidade cultural e sabedoria para contextualizar a mensagem. Paulo começa dirigindo-se à audiência por “Varões irmãos e pais” (v. 1), a mesma saudação que Estêvão usou no seu discurso (At 7.2). “Pais” seria apropriado para os sacerdotes e membros do Sinédrio. Nada é dito sobre eles, mas talvez alguns estivessem presentes nessa ocasião. Dirigindo-se a eles como “irmãos”, Paulo reforça que ele é judeu; eles são irmãos. Ele fala com eles no seu próprio idioma. Quando o ouvem falar em hebraico, podem ter ficado impressionados com a sua fidelidade ao judaísmo e ouvido cuidadosamente a sua defesa. O cristão deve usar sabedoria para transformar crises em oportunidades de proclamar a fé. O evangelho deve ser comunicado de forma sábia e compreensível ao público alvo.
O objetivo de Paulo era conciliador, o que se torna evidente de imediato na maneira de ele saudar o povo: Irmãos e pais (veja a nota sobre 1:16. Estevão havia usado a mesma fórmula ao dirigir-se ao concilio (7:2), e pode ter acontecido que alguns membros daquele concilio estivessem presentes agora para averiguar o que estava acontecendo — daí o uso de "pais" (mas em 23:1 Paulo dirige-se ao Sinédrio dizendo apenas "irmãos"). Paulo achou que em certo sentido estava num tribunal, sendo julgado, pelo que falou em a minha defesa (este termo é freqüentemente empregado: 24:10; 25:8, 16; 26:ls., 24). Em Atos essa palavra significa mais do que meramente dar respostas a acusações; inclui o pensamento de dar testemunho do Senhor. A defesa se torna, então, verdadeiro ataque, sendo o evangelho pregado aos acusadores. 22:2 / O artifício inicial em aramaico pelo menos alcançou um dos resultados que Paulo almejava: ganhou a atenção da multidão. Poucos judeus da diáspora conseguiam falar a língua da Palestina (veja a disc. sobre 6:1), e alguém que falasse esse idioma merecia ser ouvido. Assim foi que maior silêncio guardaram. É possível que Paulo também começasse a ganhar alguns corações.
3. Coragem para testemunhar em meio à hostilidade ( At 22. 3-5) - Paulo dirigiu-se ao público e fez um resumo da sua vida, a começar pelo seu nascimento, formação, religião e como perseguiu a Igreja do Senhor. Paulo corajosamente expõe a verdade diante da oposição, mesmo ao fazer menção que fora comissionado a evangelizar os gentios, sendo que o povo novamente explodiu em fúria, de modo que o comandante, confuso, mandou que o apóstolo fosse açoitado. Paulo, então, declarou ser cidadão romano, o que lhe favoreceu escapar da ira intensa do povo e aos flagelos que lhe seriam impostos pela guarnição romana. Como Paulo invoca a sua cidadania romana, os preparativos para a flagelação são cancelados. O centurião presume que Paulo está dizendo a verdade e informa o seu superior.
O tribuno quer ter certeza e pergunta a Paulo se este é romano. Paulo confirma a pergunta de forma sucinta com um “sim”. Ele não entra em detalhes sobre o que tudo isso significa; apenas quer salientar que algo está acontecendo que contradiz a lei da qual Roma tanto se orgulha. O tribuno olha para Paulo com desconfiança — afinal de contas, qualquer um pode afirmar que é romano. Ele mesmo comprou essa cidadania por muito dinheiro, pois a cidadania romana dava-lhe muitas vantagens. Onde esse pequeno homem teria conseguido o dinheiro? Paulo, porém, tinha automaticamente essa cidadania porque nasceu em Tarso. O fato de Paulo ter invocado a sua cidadania romana imediatamente o livrou da ameaça de açoitamento. O tribuno, no entanto, ainda quer saber qual é a sua posição em relação a Paulo. Ele manda tirar os grilhões do apóstolo e ordena que sumo sacerdote e sinédrio reúnam-se.
O tribuno não leva Paulo perante o sinédrio por aquilo tratar-se de um julgamento, mas para descobrir o que, de fato, está em jogo aqui por meio do confronto entre as duas partes. Isso mostra o poder dos romanos sobre o sistema religioso dos judeus. Isso também deixa claro o quão grande é a escravidão em relação às nações e em quais escravidões o povo de Deus caiu por causa dos seus pecados. Isso também mostra como o povo é cego e arrogante quando se trata do fato de que a salvação de Deus estende-se às nações. A coragem de Paulo ao testemunhar sobre a sua conversão diante da hostilidade é um exemplo de fé e resiliência. O exemplo de Paulo inspira-nos a não desperdiçar oportunidades. Cada situação da vida pode tornar-se ocasião para glorificar a Cristo. Mesmo na prisão, em injustiça e hostilidade, Paulo encontrou o momento certo para pregar o evangelho. É o Espírito Santo que nos fortalece para testemunharmos com coragem mesmo em ambientes hostis.
III. O PODER DO TESTEMUNHO PESSOAL
1. A vida de Paulo antes da conversão ( At 22. 3-5) - Paulo mostrou aos judeus que também era um judeu nascido em Tarso, mas fora criado em Jerusalém aos pés do grande mestre Gamaliel, sobrinho do famoso rabino Hillel. Paulo foi educado para ser um rabino, um líder do judaísmo. De acordo com a tradição, Gamaliel tinha 500 discípulos, entre os quais Paulo destacava-se em particular (Gl 1.13,14). Dentre os de sua idade destacou-se, demonstrando grande zelo pela tradição de seus antepassados (G1 1.14). Mais que isso, perseguiu com fúria mortal a religião do Caminho, tornando-se uma fera selvagem, prendendo e encerrando em prisões os discípulos de Cristo. Esse fato era fartamente conhecido pelo sumo sacerdote, que entregou a Paulo cartas de autorização para prender os cristãos que moravam em Damasco.
O uso que Paulo faz agora rememora o seu antigo orgulho de fariseu guardador da Lei (Fp 3.6). Em Gálatas 1.14, ele descreve-se como antigo fariseu, “extremamente zeloso” das tradições; aqui, o apóstolo afirma que havia sido “zeloso para com Deus, como todos vós hoje sois” (v. 3). Romanos 10.2 diz, todavia, que devemos ser zelosos com entendimento. Paulo foi educado segundo a mais rigorosa tradição da Lei, sendo extremamente zeloso de Deus. Ele tinha, de fato, uma vida religiosa, só que sem Cristo. Todo esse conhecimento e zelo, no entanto, não produziram salvação.
Isso nos ensina que religiosidade não é sinônimo de conversão (Rm 10.2). Paulo havia aparecido perante os cristãos como perseguidor da Igreja (At 22.4). Ele não apenas discordava do cristianismo, como também o combatia com violência, pensando estar servindo a Deus, quando, na verdade, estava resistindo ao Senhor (At 26.9). O testemunho pessoal começa com humildade. Reconhecer quem fomos sem Cristo exalta o pecador, e não a graça divina.
2. O encontro com Cristo no caminho de Damasco ( At 22. 6-11) - A conversão de Paulo foi súbita e absolutamente extraordinária. Paulo não procurava Jesus; pelo contrário, ele o perseguia. Ele não encontrou a Jesus; foi encontrado por ele. Foi Jesus quem tomou a iniciativa de buscá-lo, confrontá-lo e salvá-lo. Isso aconteceu exatamente quando Paulo seguia para Damasco como uma fera selvagem para prender os cristãos. Jesus o derruba ao chão, quebra a dureza do seu coração, convertendo-o. Como um touro bravo e indomável que caçava os crentes, Paulo foi jogado ao chão e uma luz auri-fúlgente brilhou ao seu redor. Seus olhos ficaram cegos, mas os olhos da sua alma foram abertos. Ao mesmo tempo que se tornou cativo de Jesus, encontrou a liberdade. Quebrantado, cego e convertido, foi conduzido a Damasco.
Jesus chama Paulo pelo nome. O encontro não foi apenas um fenômeno sobrenatural, mas também uma experiência pessoal e confrontadora (22.8). Perseguir a Igreja é perseguir o próprio Cristo (Mt 25.40). A pergunta de Paulo foi sem dúvida, um encontro que gerou a rendição dele (At 22.10). Essa pergunta revela um coração quebrantado e submisso. O verdadeiro encontro com Cristo sempre produz convicção de pecado, reconhecimento da soberania de Jesus e disposição para obedecer. Ananias, por sua vez, confirmou a chamada divina na sua vida (At 22.12). Deus usa Ananias para restaurar a visão de Paulo, confirmar o seu chamado e integrá-lo à comunhão cristã. Isso mostra que ninguém é chamado para caminhar sozinho.
3. Sua missão como servo e testemunha de Cristo ( At 22. 12-29) - A oposição aumentou quando Paulo falou da sua missão aos gentios, mas o evangelho expandiu-se mesmo assim. O testemunho pessoal é uma poderosa ferramenta de evangelização e não pode ser silenciado! O testemunho de Paulo revela que a verdadeira força da Igreja não está em poder humano, mas no encontro com Cristo. A sua experiência no caminho de Damasco e a sua chamada para os gentios escandalizaram os seus acusadores, mas confirmaram a amplitude do plano divino. Paulo não foi chamado apenas para crer, mas para testemunhar: (At 22.15). Ele seria um servo obediente, uma testemunha pública e um instrumento nas mãos de Deus. A missão de Paulo foi marcada por obediência e renúncia (At 22.21). O chamado de Paulo implicava rejeição, sofrimento e sacrifício. Ainda assim, ele obedeceu.
Des tacamos a seguir cinco pontos de interesse no episódio.
Em primeiro lugar, a insanidade da multidão (22.22,23). A multidão grita infrene pela morte de Paulo, enquanto arroja suas capas, atirando poeira para o ar. Por que a multidão de judeus está tão enfurecida? Aos seus olhos, o proselitismo (transformar gentios em judeus) não era problema, mas a evangelização (transformar gentios em cristãos, sem transformá-los primeiramente em judeus) era uma abominação. Era como dizer que não havia diferença entre judeus e gentios, pois ambos precisavam ir a Deus através de Cristo, sob idênticas condições.
Em segundo lugar, a ordem do comandante (22.24). O comandante romano livra Paulo da multidão alvoroçada, salvando-o do linchamento e recolhendo-o à fortaleza. Porém, sem conhecer a verdade dos fatos, manda açoitá-lo, buscando com isso, descobrir as razões de tanta virulência da multidão contra ele. Essa atitude truculenta era o procedimento padrão para extrair informações de um prisioneiro. O açoite (do latim, flagellum) era um instrumento de tortura temível, feito de tiras de couro, carregadas de pedaços toscos de metal ou osso, presas a um cabo feito de madeira forte. Se o homem não morresse sob o açoite (o que acontecia frequentemente), decerto ficaria coxo para o resto da vida.
Em terceiro lugar, a pergunta de Paulo (22.25). O mesmo Paulo que não reivindicou sua cidadania romana quando foi açoitado e preso em Filipos, agora, evita a afronta dos açoites em Jerusalém, revelando ao centurião que, como cidadão romano, não podia ser açoitado antes de ser condenado. Era ilegal submeter um cidadão romano a açoites sem um julgamento regular. A Lex Valeria e a Lex Porcia proibiam a fustigação, e até mesmo a algemação, de cidadãos romanos, e este direito foi confirmado pela Lex Julia, que dava aos cidadãos nas províncias o direito de apelar a Roma. Fica bem claro, portanto, que a lei favorecia Paulo e ele não hesitou em reivindicar seus direitos.
Em quarto lugar, o medo do comandante (22.26-29). O centurião informou ao comandante acerca da cidadania romana de Paulo. Perturbado, o comandante constata que de fato Paulo era cidadão romano por direito de nascimento e fica receoso. A cidadania romana era adquirida por direito (posição ou ofício elevado) ou por merecimento (para os que tinham prestado bons serviços ao Império). Era transmitida de pai para filho (o caso de Paulo) e também podia ser comprada, não por uma taxa, mas pelo suborno de algum oficial corrupto (o caso de Cláudio Lísias).
Em quinto lugar, a soltura de Paulo (22.30). O comandante ordenou que o prisioneiro fosse solto e que se reunis se o Sinédrio judaico, a fim de que Paulo pudesse fazer sua defesa diante dos líderes judaicos.
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AUTOR: PB. José Egberto S. Junio, formato em teologia pelo IBAD, Profº da EBD. Casado com a Mª Lauriane, onde temos um casal de filhos (Wesley e Rafaella). Membro da igreja Ass. De Deus, Min. Belém setor 13, congregação do Boa Vista 2.
Endereço da igreja Rua Formosa, 534 – Boa Vista - Suzano SP.
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BIBLIOGRAFIA
Bíblia Almeida Século 21
Bíblia de estudo das Profecias
Comentário Exegético Vol. 2 Craig S. Keener - Editora CPAD
Estudo Livro de Atos - Myer Pearlman - Editora CPAD
Novo Comentário Bíblico Contemporâneo
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