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| Pb. Junio - Congregação Boa Vista II |
TEXTO ÁUREO
"Eis aqui esta terra, eu a dei diante de vós; entrai e possuí a terra que o Senhor jurou a vossos pais, Abraão, Isaque e Jacó, que a darei a eles e à sua semente depois deles." ( Dt 1.8)
VERDADE PRÁTICA
A fidelidade a Deus e à sua Palavra dirige o crente a viver pela fé e alcançar as suas promessas.
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: Deuteronômio 1. 1-8
INTRODUÇÃO
Qual seria a pertinência de um livro escrito há mais de três mil anos para a
Igreja dos dias atuais? Em primeiro lugar, deve-se considerar que a Palavra
de Deus é atemporal. Ela não envelhece, não caduca, posto que, na sua
essência, é plenamente divina e inspirada (Is 40.8; Mt 24.35; 2 Tm 3.16; 1
Pe 1.25); logo, por integrar a Palavra de Deus, Deuteronômio tem grande
relevância, razão por que Peter Vogt disse uma vez:
O último livro do Pentateuco desenvolve o tema da graça de Deus, em grande
parte, da mesma forma que os livros anteriores. Os discursos fervorosos de
Moisés em Deuteronômio podem ser vistos como manifestações de graça, já que
Moisés, o profeta de Deus por excelência, revela ao povo o que ele precisa saber
para sobreviver e prosperar na terra e fomentar o tipo singular de comunidade
para o qual foi chamado (2015, p. 81,82).
Essa nova
comunidade tem diante de si a oportunidade de viver as promessas divinas,
mas, para isso, é preciso estar preparada. Assim, Deuteronômio é a
repetição da Lei com o objetivo de chamar esse povo para um real
compromisso com Deus e atentar realmente para os termos da aliança.
Israel, como um povo que vivia em meio às circunstâncias corriqueiras da
vida, enfrentava crises políticas, guerras, lutas, batalhas e, ao entrar na nova
terra, enfrentaria tensões e outros desafios, porém Moisés, o homem de
Deus, deixa claro que se, de fato, os israelitas procurassem ter um
compromisso real com a Aliança do Senhor antes de entrarem na Terra
Prometida, as adversidades aparentemente impossíveis de serem vencidas
seriam superadas. Era preciso que procurassem seguir em frente
compreendendo a natureza da aliança e mantendo seriamente o
compromisso com o Senhor.
Deuteronômio é visto, sobretudo, no tocante aos discursos finais de
Moisés, que, em essência, procuram relembrar os atos poderosos de Deus,
rever os seus mandamentos e, assim, exortar todo o Israel a viver em
obediência e manter uma fidelidade exclusiva para com o Senhor. O livro
chama a nova geração de israelitas a viver a aliança (Dt 6.4-5), que não tem
apenas um cerne jurídico, mas que também se fundamenta num
relacionamento que responde a Deus com amor, obediência e fidelidade.
O leitor há de entender que a estrutura de Deuteronômio firma-se em
modelos de tratados ou alianças comuns no Antigo Oriente Próximo, com o
propósito de que esse compromisso reforce a renovação do pacto, de modo
que o documento apresenta introdução (Capítulo 1), a narrativa histórica da
relação (Capítulos 1–3), as cláusulas da aliança (4–26), que são retratadas
em termos de bênçãos e maldições (27–30), e, por fim, a sucessão da nova
liderança (31–34). Em todo esse conteúdo, o alvo é levar cada israelita a ter
consciência do compromisso que assumiu com o Senhor, que deve firmar-se
na fidelidade e na confiança das suas promessas para ter um futuro certo.
Portanto, amado irmão, ao pisar no terreno de Deuteronômio, não o veja
apenas como um aglomerado de leis; o seu conteúdo é espiritual e destaca a
importância da aliança, bem como a fidelidade, a justiça e o amor de Deus,
que é apresentado neste livro como aquEle que libertou o seu povo da
agrura e que agora deseja manter um relacionamento pessoal e pleno com
ele, alicerçado na fé e na obediência.
I. DEUTERONÔMIO: AUTORIA E PROPÓSITO DO LIVRO
1. Autoria - Seguindo a tradição judaica, é preciso que voltemos para o
próprio Pentateuco, que ratifica Moisés como sendo o seu autor. No
prefácio do livro, é dito: “Estas são as palavras que Moisés falou” (Dt 1.1),
reforçado pela expressão “E Moisés escreveu está lei” (Dt 31.9).
Outros livros bíblicos referenciam Moisés como o seu autor. Em Josué
8.31,32, é dito que este seguiu a instrução de Moisés (cf. 1 Rs 2–3). Davi faz
recomendações para o seu filho com o livro de Moisés. Já no Novo
Testamento, mais especificamente nos Evangelhos de Marcos e de João,
ambos falam que Deuteronômio foi escrito por Moisés, e isso é assegurado
pelo próprio Senhor Jesus Cristo (Mc 12.26; Jo 1.45; 5.46,47).
Quando se fala sobre a concepção ortodoxa, o seu posicionamento é o da
Palavra de Deus como plenamente inspirada (2 Tm 3.16) e de que os
homens que a escreveram foram movidos pelo Espírito Santo de Deus. Isso
se confirma, por exemplo, em 2 Pedro 1.20-21. A natureza do termo
ortodoxo, cuja formação é composta (orthos, que quer dizer “correto”,
“verdadeiro”, e doksa, que quer dizer “opinião”, “glória”), em suma, diz
respeito àquilo que é reto, correto — ou seja, doutrina correta.
Na visão do
cristianismo, esse termo expressa religiosamente “fé” ou “doutrina”, aquilo
que está de acordo com os ensinos das Sagradas Escrituras. Segundo a
posição ortodoxa, portanto, fica claro que Deuteronômio tem como autor
principal Moisés, que foi inspirado por Deus para escrevê-lo — exceto,
claro, o capítulo 34, que narra a sua morte; acredita-se que ou Josué ou um
profeta posterior tenha escrito os versículos finais.
Considerações quanto à autoria mosaica Há três fatores que devemos
levar em consideração em relação à autoria mosaica. A primeira é que o
que Moisés escreveu tem autoridade divina, posto que a Lei não foi um
produto da sua mente, uma criação humana, mas, sim, uma revelação
da parte de Deus. Em segundo lugar, ao analisar o Pentateuco como um
todo, a harmonia entre os livros é algo esplêndido, visto que tudo se
entrelaça perfeitamente; não existe dissonância entre o teor de Gênesis,
Êxodo, Levítico e Números com o de Deuteronômio. Na sua unicidade,
todos eles levam a uma unidade, que é algo que provém da inspiração
divina. Em terceiro lugar, nosso Senhor Jesus Cristo fez uso do livro de
Deuteronômio e, ao fazê-lo, evidenciou a sua autoridade canônica e a
sua confiabilidade, reiterando a sua inspiração plenamente divina (Dt
8.3; Mt 4.1-4).
Em relação à data, a composição de Deuteronômio indicar ser de,
aproximadamente, 1405 a.C., por volta do fim da vida de Moisés, no
quadragésimo ano da peregrinação no deserto. O contexto histórico
permite afirmar que o escrito aconteceu nas planícies de Moabe, antes
de os israelitas adentrarem a Terra Prometida (Dt 1.3).
Em resumo, dizemos que a teoria da hipótese documentária é fraca e
falha pelas seguintes razões: 1) falta de evidência documental: as fontes nunca
foram encontradas em manuscritos separados e são construídas em cima de
suposições estilísticas, sem evidência arqueológica ou literária; 2) critérios
literários inconsistentes: as divisões são feitas a partir de critérios frágeis; 3)
capacidade literária dos antigos subestimada: crer que Moisés ou alguém da sua
época não poderia ter escrito uma obra tão complexa; 4) ignora a unidade
teológica do Pentateuco: a divisão JEDP fragmenta o texto; 5) consiste em uma
suposição evolucionista e racionalista: afirma que a religião de Israel é evoluída de
um politeísmo primitivo para um monoteísmo ético; 6) não leva em consideração
o testemunho do Novo Testamento e de Jesus Cristo: Ele atribui a autoria do
Pentateuco a Moisés (Jo 5.46); 7) as múltiplas versões apresentam-se vulneráveis: os
próprios críticos contemporâneos, com o passar do tempo, deixaram de
concordar sobre a forma tradicional JEDP, pois diversas modificações foram
propostas.
A posição ortodoxa conservadora, por sua vez, é mais consistente porque
confere destaque à unidade e à integridade do Pentateuco, concebendo
Moisés como autor — apenas com edições editoriais de Deuteronômio 34
—, e também à inspiração divina plenária (2 Tm 3.16).
Admitir Moisés como autor de Deuteronômio é entender que foi Deus
que o levantou para ser um instrumento seu na terra, para fazer a sua
vontade. Moisés tornou-se líder do povo, profeta, legislador e intercessor; no
demais, foi inspirado para deixar registrado no cânon bíblico um conteúdo
tão esplêndido que o evangelista João diz: “Porque a lei foi dada por Moisés;
a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1.17).
2. Definição - Em se tratando da estrutura do livro, a sua natureza descreve-o como
sendo organizado, evidenciando que se seguiu um plano bem tratado. No
seu aspecto estrutural, contempla os três discursos de Moisés.
Esses três
discursos são extraordinariamente preciosos, pois objetivam tratar sobre a
formação teológica e espiritual do povo de Deus, Israel, antes de adentrar a
Terra Prometida. Por meio desse testamento, Moisés transmitia as verdades
divinas da aliança envolvendo o Senhor e o seu povo.
No primeiro discurso, que consiste numa recapitulação histórica do Sinai
a Moabe, Moisés tratou do erro da antiga geração: ele queria educar a nova
geração a não proceder igualmente à anterior.
No segundo discurso, o seu
enfoque é mostrar que todos devem estar atentos à Lei da Aliança, que deve
ser cumprida pelo amor e pela obediência.
Já no terceiro discurso, o apelo é
para a renovação da aliança junto à nova geração, bem como a preparação
para o futuro.
Pela estrutura desse livro, entende-se que Moisés tinha um coração
pastoral, sendo os seus discursos vistos como testamento teológico; ele deseja
que o povo de Deus seja sincero, obediente e fiel para com o Senhor, atitude
somente de quem tem compromisso com a obra dEle. O homem de Deus
que conhece as Sagradas Escrituras é consciente que o propósito de Deus
foi chamar e preparar um povo para si desde o Antigo Testamento (Êx
19.6). Semelhantemente, no Novo Testamento, Jesus morreu para dar-nos
vida (Jo 3.16) e deseja um povo zeloso de boas obras (Tt 3.8). Desse modo, o
pastor comprometido com as Escrituras trabalhará para apresentar uma
Igreja santa (Ef 5.27).
3. Valor e propósito de Deuteronômio - Essa nova geração, que não pôde testemunhar o ocorrido no Sinai de modo
direto, é chamada a viver em fidelidade e obediência (Dt 4.1). Isso fala
seriamente para nós nos dias atuais, a considerar que toda geração precisa
renovar a sua aliança com o Senhor.
O conteúdo de Deuteronômio salienta a necessidade de um povo que
entrou em aliança com Deus ter o compromisso de viver em santidade, pois
ninguém verá o Senhor sem ela (Hb 12.14).
As instruções presentes nesse livro da parte de Moisés pela inspiração
divina eram seguidas de orientações morais e sociais para um povo que
estava às vésperas de tomar posse da Terra Prometida. Lá o seu viver teria
que ser conforme o querer do Senhor. Só se pode tomar posse das bênçãos
divinas quando se procura viver em fidelidade e obediência à Palavra.
Facilmente se compreende a importância de Deuteronômio para a vida do
povo de Deus, Israel, porque nele está claro que Israel não poderia servir a
outro deus, e sim firmar uma aliança e viver o monoteísmo ético e espiritual
(Dt 6.4).
Esse livro iria ensinar à nova geração que o Senhor não exigia nem
queria da parte dela uma obediência forçada, mas que ela fosse fruto de
amor (Dt 6.5).
Deuteronômio tem a sua importância porque faz parte do cânon bíblico.
Foi selecionado para tal como sendo um livro inspirado por Deus. Além
disso, é considerado o coração do Pentateuco e da teologia do Antigo
Testamento; também traz no seu bojo o resumo da Lei, bem como a
reinterpreta e apresenta a sua aplicabilidade. Os assuntos presentes nesse
livro são relevantes, pois abordam sobre a aliança, a obediência, a
fidelidade, a bênção e a maldição, o culto, a santidade, a justiça social.
Deuteronômio é tão importante que os seus temas serão propalados pela
boca de profetas, que estariam clamando o povo a viver em obediência,
fidelidade e verdade, pois, assim sendo, as bênçãos da parte de Deus viriam.
Isso é claramente visto nas falas de Isaías, Jeremias e Ezequiel. Esse livro
servirá de alicerce para os livros proféticos e históricos, como se pode
observar nos livros de Josué, Juízes, 1 e 2 Reis e 1 e 2 Crônicas. Os seus
conteúdos seguem a estrutura de Deuteronômio e fazem a junção de
obediência e bênção, desobediência e maldição, como bem se nota no seu
capítulo 28.
O Senhor deixou claro naqueles dias que as palavras que Ele estava
entregando a Israel pela instrumentalidade de Moisés no livro de
Deuteronômio eram o fundamento para o bem da vida espiritual de toda a
nação (Dt 32.47); assim, para que os israelitas tivessem essa vida, de fato, era
preciso que o ensino entre eles fosse algo constante. Os pais, em especial,
deveriam exercer a missão docente nos lares para que os filhos tivessem
vida; de igual modo, deveriam proceder os líderes. A vida está no ensino da
Palavra. O avivamento vem pela Palavra. O temor a Deus vem pelo
conhecimento da Palavra. A fé é fortalecida pela Palavra (Rm 10.17). Triste
é ver um lar e uma igreja que não têm Palavra. Ambos jamais terão a
verdadeira vida, que só vem ao crente pela Palavra (Jo 5.24).
Assim como nos dias de Moisés, também hoje é imprescindível a Palavra
para que se tenha vida. Ela jamais deve ser vista como coisa vã, pois é nosso
sermão profético, o livro que chama cada um de nós a viver em aliança com
Deus pelo sangue de Cristo no Calvário, que nos ensina que recebemos
bênçãos por meio da obediência, mas que, pela desobediência, vêm as
maldições.
Portanto, amados irmãos, a Palavra de Deus é atemporal e essencial para
a vida do homem em qualquer tempo e época. Quem a ela der ouvidos terá
a vida eterna.
II. CONTEXTO HISTÓRICO DE DEUTERONÔMIO
1. Panorama espiritual - Para qualquer tempo ou época, a Palavra de Deus deve ser dirigida ao
povo, e os que se prontificarem a ouvi-la comprometidamente e a render-se
a ela de todo coração serão bem-aventurados (Ap 1.3). Fica, portanto, uma
lição grandiosa para os líderes atuais: devem sempre falar a Palavra de Deus
por meio de instruções e advertências às novas gerações e alertar que, antes
de tomar posse das bênçãos do Senhor, é preciso conhecer a sua Palavra,
pois, se assim não for, “o maná poderá criar bicho”.
O peso espiritual que envolve essa narrativa é que a nova geração viveu e
cresceu no deserto e pôde contemplar o cuidado e a fidelidade de Deus em
tudo para com os seus pais. Ela não presenciou os sinais, e isso era sério
porque ela poderia esquecer-se da aliança e deixar-se envolver pelas práticas
pecaminosas dos povos cananeus (Dt 8.11-14), de modo que ela precisava
renovar o compromisso com o Senhor — a aliança —, ter o viver marcado
pelo temor, bem como a consciência da santidade de Deus para manter
exclusividade para com Ele e adorá-lo de coração. É frente a tudo isso que
Moisés, como líder, lembra ao povo os feitos do Senhor (Dt 8.2), a
necessidade de constantemente se ensinar os filhos (Dt 6.6-7) e jamais se
esquecer dEle (Dt 8.11-14).
Por isso é que a expressão “Estas são as
palavras” encerram em si todo um aspecto espiritual.
É na terra de Moabe, região do rio Jordão, que o livro de Deuteronômio
descreve uma cerimônia em que Moisés fará o seu discurso para a nova
geração, que está no limiar da Terra Prometida (Dt 1.1-8; 4.44-46). Isso
acontece no último mês do quadragésimo ano após o Êxodo (Dt 1.3) e,
nesse tempo, toda aquela geração antiga, composta pelos homens de guerra,
já havia perecido (Dt 2.16), bem como a conquista da Transjordânia (além
do Jordão) concretizara-se (Dt 1.4; 2.24) e já estava próxima a morte de
Moisés. Foi em meio a todo esse momento que se deu a renovação da
aliança.
O desejo do Senhor era assegurar a continuação da história do seu
povo por meio da sua liderança, que, depois da morte de Moisés, seria
encabeçada por Josué, a quem todos deveriam manifestar obediência (Dt
31.3; 34.9). Da parte do povo, deverá haver o compromisso de uma
consagração plena para com o Senhor. Essa cerimônia foi marcada pela
declaração da Lei de Deus (Dt 1.5). Isso se fazia necessário pelo fato de tais
estimulações integrarem a aliança, conforme se descrevia nos tratados de
suserania.
2. Um panorama geográfico - Além do Jordão é, literalmente, eber, “a travessia” ou “vale” do Jordão. E termo
usado para se referir ao lado leste (4.41,49) e ao lado oeste (3.20,25; 11.30). Ainda que
não haja expressão qualificativa para indicar de que lado se quer dizer, é surpreendente que possa ser entendido como alusão ao lado oposto do qual o autor escreveu. Neste
caso, o palavreado mostraria que os versículos iniciais foram escritos na terra de Canaã
como explicação editorial do lugar onde os discursos foram feitos. Adam Clarke sugere
que as palavras poderiam ter sido adicionadas por Josué ou Esdras.1 Mas certos estudiosos consideram que a expressão hebraica eber Yorden é descrição técnica do lado
leste do rio Jordão.
Em hebraico, a palavra traduzida por deserto representa qualquer área de terra
desabitada, não necessariamente um deserto. A planície é “Arabá” (ARA), o vale pro
fundo que vai de norte a sul do mar Morto. Há muito que a identificação dos outros
lugares — Parã, Tofel, Labã, Hazerote e Di-Zaabe — é tema de discussão entre os
estudiosos. Alguns os consideram indicações da rota desde Horebe (2, outro nome do
monte Sinai) até à fronteira da terra de Canaã. Sendo assim, a menção desses locais é
histórica e dramática, bem como geográfica.
A depressão da Arabá, onde os discursos
foram feitos, se estendia até ao golfo de Aqaba (mar Vermelho; ver Mapa 3), e ao longo do seu lado oeste acha-se a rota para Sinai, onde a lei foi proclamada. Outros críticos espo
sam que a menção é a um lugar chamado Sufe (1) e não ao mar Vermelho iyam suph).
Completam dizendo que os outros nomes são de lugares que não podem mais ser identi
ficados no vale do Jordão, defronte de Bete-Peor, na terra de Moabe (cf. 4.46).
O escritor acrescenta um comentário significativo: Onze jornadas há desde
Horebe, caminho da montanha de Seir (a rota leste que margeia as fronteiras de
Edom) até Cades-Barnéia (2). Só 11 dias de viagem, mas que levou quase 40 anos!
Quantos se condenam a anos de peregrinação no deserto, vivendo uma vida abaixo do
melhor, quando poderiam estar desfrutando a plenitude da bênção da santificação total
de Deus (cf. Hb 4.1-11)!
3. O discurso exortativo de Moisés - A partir dos versículos 4-8, Moisés, antes que o povo adentre a terra, faz
uma descrição histórica para aquela nova geração sobre o grande poder de
Deus, que destruiu dois reis poderosos: Siom e Ogue (Nm 21.21-35), tudo
pelo bem de Israel. Por meio dessas vitórias, estava confirmado o seu grande
poder. Isso foi uma maneira de preparar o povo para viver pela fé, seguir
em frente e realizar novas conquistas, em especial a terra de Canaã. Por
meio desses sinais divinos, estava claro que o Senhor abriria grandes portas
(Sl 78.11-12). Esse discurso acerca de milagres passados era para lembrar
aquela geração nova sobre quem era o Senhor e fortalecer a fé de cada um.
A partir do versículo 5, Moisés começa a sua exortação ao declarar a lei.
Há dois aspectos que precisamos considerar: primeiro, o verbo declarar, que,
do hebraico be’er, significa explicar, tornar claro; segundo, o substantivo Torá, a
Lei de Deus. Moisés não cria qualquer tipo de novidade, de atrativo e de
apelação, muito menos inventa um novo culto para aquela nova geração.
Ele simplesmente repete a Lei, mas faz isso explicando, expondo
detalhadamente, agindo com coração pastoral e teológico. Lendo Neemias
8.8, vemos que Esdras semelhantemente procedeu junto ao povo que
voltara do cativeiro e procurou ensinar com detalhes a Palavra de Deus,
expondo-a e aplicando-a precisamente.
O papel do homem de Deus é
tornar compreensível a todos a mensagem divina sem jamais a complicar.
Moisés relembra à nova geração que, desde que a antiga esteve no Sinai
ou Horebe, Deus queria o seu povo em movimento, em ação, pois o Sinai
seria apenas o lugar da revelação, mas não a parada final. Os israelitas
deveriam avançar sempre. Isso nos ensina que o melhor é permanecermos
na vontade de Deus. Ele sabe o momento em que devemos parar, bem
como a hora de prosseguirmos (Fp 3.13,14). No versículo 7, o grande
legislador deixou claro que o Senhor havia dado a ordem para que partisse,
pois a terra que lhes fora prometida estava diante deles. Era preciso que tão
somente conservassem a fé e a obediência na certeza de que Ele iria
entregá-la por causa do juramento feito aos seus pais, em referência à
aliança abraâmica (Gn 12.1-3; 15.18-21).
Biblicamente, sabemos que as
promessas de Deus são verdadeiras, mas, para desfrutarmos delas, é preciso
que nos movimentemos e andemos em obediência e fé (Js 1.3; Hb 4.2).
Está claro no versículo 8 o porquê da ênfase e da repetição de tudo para
aquela nova geração: revelar a autoridade da promessa, a necessidade de
andarem em obediência e a certeza de que Deus cumpriria o que prometeu
por causa da aliança. O Senhor é fiel em tudo o que diz e, quando promete,
cumpre (Nm 22.23). Ele colocou diante da antiga geração uma
oportunidade que não foi valorizada e, por isso, fracassaram. Agora a
coloca diante da nova geração: para entrar na terra, precisava apenas ter fé,
ação e obediência (2 Co 1.20).
4. Desafiando a nova geração a ser decisiva - Moisés falou para a nova geração não seguir o exemplo da antiga, a qual
falhou por desobediência e infidelidade e não pôde entrar na Terra
Prometida. Agora, porém, os israelitas podiam seguir em frente, com
responsabilidade e fidelidade, ainda que não tenham visto os grandes
milagres operados por Deus, como o viram os seus pais (Dt 11.2-7). Paulo
disse que andamos por fé, e não por vista. Jesus falou que são bem aventurados os que não viram e creram. Nossa fé deve firmemente nos
conduzir em obediência, de modo a desfrutarmos das promessas de Deus
(Hb 11.1).
A responsabilidade agora estava com a nova geração. Moisés claramente a
desafia a assumir o compromisso da aliança de modo pessoal. Ela não
deveria firmar-se apenas no desejo de herdá-la. Dessarte, é também
desafiada a não se envolver com a idolatria e os pecados das nações da terra
de Canaã, isto é, não poderiam ser influenciados pelas suas práticas
pecaminosas e corruptoras (Dt 12.2-4).
Moisés, portanto, desafia essa nova geração a escolher entre a vida e a
morte (Dt 30.19), manter exclusividade na adoração para com Deus, amá-lo
de todo o coração (Dt 6.5) e procurar andar nos seus caminhos (Dt 10.12-
13).
Sabemos que tudo está em constante mudança — líderes, famílias —, e
todos sofrem pressões espirituais e culturais (como salienta Salomão em
Eclesiastes 1.4: “Uma geração vai, e outra geração vem”), mas o que se quer
dizer é que cada geração é responsável por viver e assumir o seu
compromisso de fé com Deus (Dt 30.19), e não ser apenas herdeira de uma
tradição, mas que se tenha fé tal como Timóteo, que resolveu viver uma fé
sem fingimento, sobre a qual todos davam bom testemunho (At 16.1; 2 Tm
1.5).
III. O LADO DOUTRINÁRIO E PRÁTICO DE DEUTERONÔMIO
1. Relevância doutrinária - O peso teológico de Deuteronômio está nas suas expressões atinentes às
doutrinas — verdades espirituais que envolvem as revelações sobre Deus, o
homem e a aliança. Esse livro traz no seu bojo teológico verdades gloriosas
sobre a fé e revela o caráter de Deus e a importância de o homem
desenvolver com Ele um relacionamento marcado pela fé e obediência,
além de destacar princípios morais, culturais e espirituais.
No que diz respeito ao lado teológico de Deuteronômio, deve-se levar em
consideração cinco aspectos importantes:
o primeiro diz respeito à ênfase à
aliança, e isso porque esse livro fala sobre a necessidade de Israel renovar o
seu pacto com o Senhor; expressa, por meio de um tratado antigo, um
aspecto histórico que envolve cláusulas, bênçãos e maldições.
A grande ênfase está em conscientizar a todos os israelitas que Deus é o
grande Senhor que os libertou do poder de Faraó e que agora requer deles
fidelidade exclusiva e obediência, ao estabelecer uma aliança que exige
lealdade exclusiva e acatamento (Dt 5.2). Essa aliança apresenta dois lados:
o histórico e o relacional (Dt 6.20-25). O cristão também vive segundo uma
aliança, não mais a Mosaica, mas a que foi firmada com Cristo por meio do
seu sangue (Lc 22.20), razão por que se deve demonstrar amor, fidelidade e
obediência a Deus (Rm 1.5).
O segundo aspecto relevante é expressar a
soberania divina, bem como o monoteísmo, a exclusividade na devoção, isto
é, a unicidade de Deus.
Ele é único e verdadeiro, sem páreo, e cada israelita deveria manifestar
sinceridade, obediência e fidelidade sem abrir possibilidade alguma para a
adoração de qualquer deus pagão, pois, nesse caso, já se estaria incorrendo
em idolatria; antes, deveriam saber que o Senhor Deus é único (Dt 6.4).
Esse versículo descreve a confissão de fé de Israel, que diariamente é
expressa pelos judeus; isso é relevante para nós, cristãos, pois, ainda que
vivamos num mundo que se dá ênfase ao pluralismo e ao relativismo,
devemos manter nossa fidelidade para com o único e verdadeiro Deus (Jo
17.3; 1 Co 8.6).
O terceiro aspecto teológico relevante orbita em termos de obediência e
bênção. Isso se dá pelo fato de a bênção estar atrelada à obediência, e a
maldição, à desobediência; ademais, deve-se entender que Deus é santo,
zeloso e justo (Dt 28.1,2).
Já no quarto aspecto, compreende-se que há uma
ênfase à teologia da história e da memória. É por meio dela que Moisés
relembra à nova geração os grandes feitos do Senhor. Ele assim o faz para
que o povo não se esqueça dEle. Na verdade, a teologia histórica como
memória era pedagógica e procurava ativar e provocar na nova geração um
compromisso verdadeiro e fiel para com Deus (Dt 8.2).
Em quinto lugar, a teologia de Deuteronômio mostra que cada israelita
deveria ter para com Deus atitude de temor e amor, que seria a base da
motivação certa para que algo fosse feito para Deus, pois não deveria ser
frio, mecânico, mas algo afetuoso (Dt 10.12), inclusive obedecer.
O temor
envolveria a reverência, e essa conscientização levaria cada um a servir a
Deus sem receio de punição (Dt 6.5; 14.23).
O cristão sabe que a base da sua nova vida de comunhão com Deus
baseia-se no amor (Rm 5.8), que é descrito por Cristo como o maior de
todos os mandamentos (Mt 22.37-38); assim, o cristão desenvolve a sua vida
de fidelidade, fé e obediência alicerçado no amor, e não apenas em um
sentimento de obrigação (Jo 14.15).
Por fim, o lado teológico desse livro mostra que Israel é o povo que foi
salvo pelo Senhor, passando a ser exclusivamente dEle, de maneira que
deveria proceder como uma nação santa (Dt 7.6), apresentar um viver em
conformidade com os princípios éticos e espirituais (Dt 10.16) e afastar-se de
todas as práticas de injustiça, bem como das contaminações provenientes de
práticas pagãs. Semelhantemente, a Igreja, como povo santo, deve viver
neste mundo mantendo um padrão de santidade e alegria, sendo sal e luz e
separando-se cada vez mais do pecado (Mt 5.1-16; 1 Pe 1.9).
2. Revelação ética e prática - Sabemos dos ataques
severos que estão sendo disparados hoje contra nossos filhos, mas é fato que
a educação no lar continua sendo a forma mais segura para que os
mantenhamos protegidos, por exemplo, das correntes pedagógicas
equivocadas do mundo pós-moderno. Cabe aos pais a missão de continuar
ensinando no lar a Palavra de Deus com todo amor e sem severidade (Ef
6.4; 2 Tm 3.14,15).
A aplicação dos ensinos ainda envolve o aspecto da justiça e da equidade
social, e isso porque, no conteúdo de Deuteronômio, há destaque para os
temas que abordam os cuidados com pobres, órfãos, viúvas e estrangeiros
(Dt 2.17-22).
Essa justiça jamais poderia ser alterada, pois, teologicamente,
estava firmada no caráter de Deus, que ama e usa de misericórdia para com
todos, sempre cuidando e socorrendo os necessitados (Dt 10.18). O salvo em
Cristo encontra no exemplo do seu Pai a importância de agir com
compaixão, amor e cuidado no tocante às pessoas com necessidades, visto
que é chamado para viver neste mundo desenvolvendo a justiça do Reino
(Mt 25.30-40; Tg 1.27).
O lado prático de Deuteronômio reforçava a cada israelita a necessidade
de andar em plena obediência, pois esse era o caminho certo para se ter a
vida (Dt 30.19). A obediência teria que ser praticada à luz da Palavra de
Deus. Desse modo, ele receberia paz, prosperidade, vida e bênção; do
contrário, maldição e juízo. Todo cristão sabe que o caminho para um viver
abençoado é proceder segundo o evangelho de Cristo Jesus, que é o
caminho para a vida e a bênção espiritual (Jo 5.24; Hb 5.9).
3. O posicionamento de Jesus e dos apóstolos sobre Deuteronômio - Em Mateus 4.1-11, na tentação que
enfrentou por parte do Inimigo, Ele respondeu com segurança, firmado
nesse livro sagrado. As suas citações, alinhadas com Mateus, foram:
Deuteronômio 8.3; 6.13,16. Com esse procedimento, Jesus mostra a cada
cristão a necessidade de a Palavra de Deus ser conhecida e usada com
sabedoria, no momento certo, inclusive no momento de resistir a quaisquer
investidas do Maligno (Sl 119.11).
Jesus também fez uso de Deuteronômio para destacar o amor como o
centro da Lei de Deus. Ele procedeu dessa maneira ao responder sobre qual
seria o maior de todos os mandamentos, deixando claro que seria o amor
(Mc 12.31).
Jesus novamente nos ensina que o amor a Deus é a base para a
verdadeira espiritualidade.
Assim como Jesus, os apóstolos consideraram Deuteronômio como
Palavra inspirada e de autoridade divina, vendo-o como útil em tudo para a
vida de fé e obediência cristã, para ensinar, corrigir e educar, razão por que
o citaram. Para falar do povo de Deus como nação santa, sacerdócio real,
que são conceitos veterotestamentários, Pedro recorreu a esse livro (Dt 7.6,
14.2; 1 Pe 2.9), o que prova que a identidade da Igreja e a sua eleição em
Cristo vêm desde o Pentateuco, em especial Deuteronômio, que, doravante,
é direcionado a Cristo (Ef 1.4).
Destacamos ainda mais dois apóstolos que viram a autoridade de
Deuteronômio como Palavra de Deus:
Paulo fez uso dele ao abordar nas
suas cartas, especialmente Romanos, sobre o tema justificação. O apóstolo
mostrou que Cristo fez-se maldição em nosso lugar para dar-nos a salvação
(Rm 5.1; Gl 3.3). O pecado estava revelado por meio da Lei, e a justificação
e a redenção vinham por meio de Cristo. A justiça que a Lei exigia foi
cumprida em Cristo quando Ele morreu na cruz por nossos pecados, de
modo que o cristão é agora liberto não por meio de uma lei de letras
mortas, legalista, mas, sim, por meio da fé no Senhor Jesus (Rm 3.20-24).
Outro apóstolo que também fez uso de Deuteronômio e falou da Lei
como espelho foi Tiago, que a destacou como guia moral e revelou a
natureza desse livro como a Lei sendo vida, bênção e liberdade (Tg 1.25). A
Lei não salva, obviamente, mas pode ser vista como um espelho que
expressa a vontade de Deus e que mostra o caminho certo para que
alcancemos um viver santo (Rm 7.12).
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AUTOR: PB. José Egberto S. Junio, formato em teologia pelo IBAD, Profº da EBD. Casado com a Mª Lauriane, onde temos um casal de filhos (Wesley e Rafaella). Membro da igreja Ass. De Deus, Min. Belém setor 13, congregação do Boa Vista 2.
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BIBLIOGRAFIA
Bíblia Almeida Século 21
Bíblia de estudo das Profecias
Livro de apoio O Deus da Aliança, Pr. Osiel Gomes - Editora CPAD
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