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sexta-feira, 31 de julho de 2026

LIÇÃO 06 - A SUFICIÊNCIA DA GRAÇA NA CIDADE DE CORINTO.

Pb. Junio - Congregação Boa Vista II

 



                TEXTO ÁUREO

"Porque eu sou contigo, e ninguém lancará mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade." (At 18.10)


                VERDADE PRÁTICA

A graça de Deus é suficiente para sustentar o crente em meio ás adversidades.


LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: Atos 18. 1-11


                INTRODUÇÃO


A fundação da Igreja em Corinto, registrada em Atos 18, é um capítulo marcante na história do cristianismo primitivo, especialmente por evidenciar duas realidades fundamentais da missão cristã: a suficiência da graça de Deus em meio às adversidades e a importância de contextualizar a mensagem do evangelho sem comprometer a sua essência.

Enfrentando oposição e desafios numa cidade moralmente decadente e religiosamente pluralista, encontrou no poder e na graça divina a força necessária para perseverar, ao mesmo tempo que soube adaptar a sua abordagem para alcançar um público altamente diversificado. A graça não escolhe ambientes tranquilos; ela manifesta-se nos piores cenários. Como o Senhor disse a Paulo mais tarde: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Co 12.9).

 Howard Marshall observa que Corinto e Efeso foram as duas cidades mais importantes que Paulo visitou no decurso da sua obra missionária. Corinto era um grande centro comercial, um mercado de fama mundial, que controlava o comércio em todas as direções, não apenas de norte a sul por terra, mas também de leste a oeste por mar. Essa grande metrópole tinha dois portos. Era uma cidade de navegadores e mercadores. Suas feiras estavam repletas de produtos estrangeiros. Por sua vez, Efeso, também famosa pelo comércio, era conhecida como o mercado da Ásia. Além disso, era um dos maiores centros religiosos da época, pois o templo de Diana, uma das sete maravilhas do mundo antigo, atraía turistas e religiosos de toda a parte. Essas duas cidades eram absolutamente estratégicas, e Paulo tinha os olhos bem abertos para perceber isso.



                I.     PAULO CHEGA A CORINTO (AT 18. 1-6)


1.    Corinto riqueza material e miséria espiritual    -     A cidade era o centro político da Grécia, que, nessa época, superou Atenas em importância política e comercial. Corinto era capital famosa pela sua opulência, porém cheia de sensualidade e devassidão, sendo o maior centro de imoralidade de todo o Império Romano (1 Co 6.9-11) por abrigar templos dedicados a várias divindades (At 18.4), como Afrodite, a deusa do amor, cujo culto envolvia práticas sexuais. Estrabão, historiador, geógrafo e filósofo grego, revela que havia em Corinto cerca de mil prostitutas religiosas dedicadas a esse culto.

Corinto era uma metrópole cosmopolita (1 Co 1.2), isto é, uma grande cidade que se destaca pela diversidade cultural e pela presença de pessoas de diferentes nacionalidades e origens, comercialmente estratégica e espiritualmente caótica, com uma ambiência hostil à mensagem de santidade (2 Co 12.21). Mesmo assim, Deus escolheu esse lugar para plantar uma igreja forte (At 18.8), mas era ali que Ele tinha “muito povo”. Entretanto, Deus opera nos ambientes mais difíceis, e a sua graça é suficiente (2 Co 12.9). A graça não escolhe ambientes tranquilos; ela manifesta-se nos piores cenários. Nesse ambiente desafiador, Paulo chegou com temor e tremor, carregando não apenas o peso físico de perseguições anteriores, mas também a preocupação pastoral por todas as igrejas.

Em 1 Coríntios 2.1-5 na Nova Almeida Atualizada, Paulo explica que, ao pregar aos coríntios, não usou “sublimidade de palavras ou de sabedoria”, mas decidiu focar em “Jesus Cristo e este crucificado”, apresentando-se com “fraqueza, temor e grande tremor”, e não com linguagem persuasiva humana, mas com demonstração do Espírito e poder para que a fé deles dependesse do poder de Deus, e não da sabedoria humana.

            GEOGRAFIA DE CORINTO

Embora Corinto tivesse prosperado séculos antes, em 146 a.C. a cidade foi completamente demolida pelos romanos como punição por sua resistência à ocupação romana. Em 44 a.C., Corinto foi reconstruída por ordem de Júlio César, que estabeleceu um grande número de colonos italianos ali. Graças a sua grande atividade comercial, a cidade logo atraiu milhares de habitantes cuja principal ocupação era o comércio. Em 27 a.C., César Augusto criou a província senatorial de Acaia, e Corinto passou a ser sua capital. Corinto não era apenas a capital da província da Acaia, mas também um grande centro urbano, com uma população estimada em duzentos mil habitantes.

 Ficava bem próxima de Atenas, a grande capital da Grécia e capital intelectual do mundo. Corinto era banhada por dois mares, o Egeu e o Jónico. Cerca de 3 km ao norte de Corinto, ficava o porto de Léquio, que recebia navios da Itália, da Espanha e do norte da África. O porto de Cencreia, localizado 11 km a leste de Corinto, possibilitava o tráfego marítimo nos dois sentidos para o Egito, Fenícia e Ásia Menor. A cidade de Corinto recebia gente nova todos os dias e dela saía gente diariamente. Pessoas oriundas do mundo inteiro fervilhavam pelas ruas e praças. Corinto ficava no corredor do mundo. Era uma cidade cosmopolita, pois o mundo inteiro estava dentro dela.

            MORALIDADE E ESPIRITUALIDADE

 A razão moral. Embora Corinto fosse uma cidade extremamente intelectual, era também moralmente depravada. Corinto tinha recebido a alcunha de cidade mais depravada de seu tempo. Se tirarmos hoje uma radiografia da nossa sociedade, poderemos dizer: Que sociedade corrompida! Que sociedade poluída, maculada pela sensualidade, pela pornografia, pela imoralidade sexual! Mas a nova moralidade que testemunhamos hoje nada mais é do que a velha moralidade travestida com roupagem talvez um pouquinho diferente. A degradação moral de Corinto pode ser identificada pelas seguintes razões:

1. A prostituição. Em Corinto a religião se confundia com a prática sexual. Afrodite, considerada a deusa do amor, era adorada e tinha o seu templo-sede na Acrópole, a parte mais alta da cidade. Alguns estudiosos afirmam que aproximadamente dez mil mulheres trabalhavam nesse templo de Afrodite como prostitutas cultuais. No topo da mais alta montanha de Corinto, as sacerdotisas adoravam aquela divindade paga através da prostituição. Não bastasse isso, essas prostitutas cultuais desciam durante a noite para a cidade e se entregavam aos muitos marinheiros e turistas que ali aportavam. De fato, o ambiente era profundamente marcado pela prostituição e pela impureza sexual.

2. O homossexualismo. Em Corinto ficavam os principais monumentos a Apoio, deus grego que representava a beleza do corpo masculino. A adoração a Apoio induzia a juventude, não apenas coríntia, mas a juventude grega em geral, a se entregar ao homossexualismo. Talvez Corinto fosse o centro homossexual do mundo na época. Se você quer ter uma vaga ideia do que isso significava, lembre-se de como Paulo descreveu com cores vivas esse assunto em sua carta aos Romanos (Rm 1.24-28). E provável que o apóstolo tenha escrito sua carta aos Romanos em Corinto. Podemos imaginar, então, Paulo escrevendo sobre o homossexualismo após abrir a janela da sua casa e olhar para Corinto. Era uma cidade de práticas homossexuais despudoradas. Muitos membros da igreja de Corinto tinham vivido na prática do homossexualismo antes de se converterem (lC o 6.9). Essa era a situação dessa grande cidade.

A razão espiritual. Corinto tinha muitos deuses e muitos ídolos. Até hoje, quando se visita a cidade, é possível visualizar enorme gama de estátuas e monumentos dedicados aos deuses. Por isso, Paulo entende que aquela cidade precisava do Deus verdadeiro. A mente estratégica de Paulo encontra em Corinto uma sinagoga, uma ponte para o evangelho. A partir dessa ponte, Paulo leva o evangelho a toda a cidade. Examinemos agora alguns pontos de Atos 18.1-28 que nos chamam a atenção.


2.     Temor humano e dependência da graça     -    Ao chegar a Corinto, após sofrer rejeições noutras cidades como Filipos, Tessalônica e Atenas, Paulo estava emocionalmente abatido e fisicamente cansado. Ele provavelmente estava deprimido, com medo, sentindo solidão e fraqueza, temendo que ali em Corinto o seu trabalho fosse interrompido por judeus opositores (como em Tessalônica e Bereia) ou pela mundanidade altamente carregada ao seu redor. Apesar do seu zelo, Paulo sentiu-se vulnerável. Mais tarde, ele escreveria sobre isso (1 Co 2.3). Isso mostra que Paulo também era humano, sujeito a pressões e inseguranças, especialmente diante da dureza espiritual de Corinto.

Apesar da presença de amigos na cidade, a permanência em Corinto seria um período de provações para Paulo, e o Senhor falou-lhe numa visão com palavras de encorajamento (At 18.9,10). A afirmação divina era apoiada por uma promessa tríplice: o Senhor estaria sempre com ele (Mt 28.19); nada lhe faria mal (não que nenhuma tentativa seria desferida, mas que ele sobreviveria (vv. 12-17; cf. Sl 23.4; Is 41.10); Deus tinha muito povo naquela cidade (vv. 10; cf. 1 Rs 19.18; Os 2.23). Essa promessa não apenas encorajou Paulo, como também revelou o quanto a graça divina é suficiente para sustentar o obreiro mesmo nos contextos mais hostis. Depois desse encorajamento, Paulo ficou ali um ano e seis meses ensinando entre eles a palavra de Deus, tempo incomum para alguém tão perseguido (At 18.11).

É natural o ser humano sentir medo, mas o Altíssimo socorre os seus, e não os deixa desamparados. Quando o servo crê nessa promessa, o medo, a insegurança, as dúvidas e as fraquezas são neutralizadas pela fé que ele possui. Ninguém pode silenciar a voz de quem é cheio do Espírito Santo. Isso prova que, quando Deus abre uma porta, ninguém fecha (Ap 3.7,8). E, quando Ele diz “não temas”, nossa fraqueza encontra abrigo na suficiência da sua graça. Pela leitura sequencial do livro de Atos, percebe-se que outro líder da sinagoga em Corinto chamado Sóstenes deve ter assumido o lugar de Crispo na sinagoga durante algum tempo, tendo depois também se convertido ao cristianismo. Paulo enfrentou forte oposição e ódio contra ele e contra o evangelho; por isso, passou a recear a sua permanência naquela cidade (1 Co 2.3). O apóstolo, contudo, recebeu do Senhor uma direção clara para permanecer firme. Essa firmeza não se apoiava em estratégias humanas, mas, sim, no reconhecimento de que a sua força vinha do Senhor. Em outro momento de fraqueza, o próprio Paulo ouviu isso de Deus (2 Co 12.9). Corinto foi, portanto, um laboratório da graça divina, onde a força de Paulo não estava na sua retórica, mas na dependência do Espírito Santo!


3.    O início do ministério e a oposição na sinagoga    -    Como já citado, no ano 49 d.C., um ano antes de Paulo chegar a Corinto, o imperador Cláudio havia expulsado de Roma todos os judeus. Por essa causa, Priscila e Aquila deixaram a Itália e foram morar em Corinto. Esse casal era colaborador do ministério de Paulo e exercia o mesmo ofício do apóstolo, a fabricação de tendas. Em Corinto, Paulo foi morar com eles, trabalhando com as mãos para seu sustento (2Co 11.7-9). Paulo jamais deixou de pregar o evangelho por falta de sustento das igrejas. Nessas circunstâncias trabalhava para sua própria sobrevivência. 

Esse não era o ideal de Deus, pois o princípio divino é: 

...Aos que pregam o evangelho que vivam do evangelho (ICo 9.14). Porém, para evitar qualquer obstáculo à pregação do evangelho, Paulo se abstinha de receber o sustento material (ICo 9.12b). 

Aos sábados, Paulo ia à sinagoga persuadir tanto os judeus como os gregos prosélitos acerca da fé em Cristo. Priscila e Aquila formavam um casal dedicado, que servia fielmente a Deus e arriscou a própria vida por Paulo (Rm 16.3,4). Ajudaram-no em Corinto (18.2,3) e em Efeso (18.18-28), onde a igreja se reunia em sua casa (ICo 16.19). O versículo 2 é o único trecho em todo o Novo Testamento em que Aquila é mencionado antes de Priscila (18.18,26; Rm 16.3; 2Tm 4.19). Justo González acredita que o fato de Priscila aparecer primeiro parece indicar que ela era mais importante na vida da igreja do que seu marido. 

Tanto em Corinto como em Efeso, as maiores cidades da Acaia e Ásia Menor respectivamente, Paulo adotou praticamente a mesma metodologia: a) começou a falar na sinagoga na tentativa de “persuadir” os ouvintes judeus de que Jesus era o Cristo (18.4,5; 19.8); b) à rejeição dos judeus, deixando a sinagoga e passando a evangelizar os gentios (18.6,7; 19.9); c) a ousadia de Paulo foi recompensada por muitas pessoas que ouviram o evangelho e creram (18.8; 19.10); d) Jesus confirmou a sua palavra e encorajou o seu apóstolo - em Corinto através de uma visão e em Efeso através de milagres extraordinários (18.9,10; 19-11,12); e e) as autoridades romanas rejeitaram a oposição e declararam a legitimidade do evangelho — em Corinto através do procônsul Gálio, e em Efeso através do escrivão da cidade (18.12-17; 19.35-40).

Paulo precisou exercer o ministério de tempo parcial até a chegada de Silas e Timóteo em Corinto (17.14,15; 18.5).  Esses obreiros trouxeram ofertas das igrejas macedônias a Paulo (2Co 11.8,9; Fp 4.15) e, com isso, o apóstolo deixou seu trabalho secular e dedicou-se exclusivamente à pregação do evangelho. O cerne de sua mensagem consistia em provar que o Jesus histórico era o Messias esperado pelos judeus. Na cidade de tantas ideias e tantas filosofias, Paulo pregou Cristo e este crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios; para os salvos, porém, sabedoria de Deus (lC o 1.23-25).


                  II.     A CONTINUIDADE DA MISSÃO E O ENCORAJAMENTO DIVINO ( AT 18. 7-11)

 

1.    A casa de Justo e o avanço do evangelho    -    A decisão de voltar-se para os gentios rendeu frutos imediatos. Tício Justo, homem temente a Deus que morava ao lado da sinagoga, acolheu Paulo, ao passo que Crispo, líder da sinagoga, converteu-se com toda a sua família. A partir daí muitos coríntios converteram-se ao Senhor e foram batizados. A mudança para a propriedade vizinha à sinagoga foi altamente bem-sucedida, pois muitos coríntios agora ouviam a mensagem, criam e eram batizados.

Saindo da sinagoga, certo homem gentio chamado Tito Justo, temente a Deus e frequentador da sinagoga, que deve ter-se convertido sob o ministério de Paulo, ofereceu um espaço na própria residência para o trabalho do apóstolo. A sua casa ficava ao lado da sinagoga (v. 7), o que colaborou com a missão de Paulo, dado a ele e à nova congregação  um bom conceito na cidade, o que era muito importante. Houve uma grande repercussão entre os coríntios quando souberam que ele pregava na casa de um cidadão romano, e assim muitos se converteram. Como resultado do trabalho de Paulo, muitos habitantes de Corinto abraçaram o cristianismo, inclusive Crispo, principal da sinagoga (v. 8). Crispo de Calcedônia é um dos primeiros seguidores de Jesus no Novo Testamento. Ele é mencionado em 1 Coríntios 1.14 como um dos líderes da sinagoga de Corinto. Ele e a sua família foram convertidos ao cristianismo por Paulo de Tarso (At 18.8) e batizado pelo apóstolo em Corinto, na Grécia (ver 1 Co 1.14).


2.    O medo do apóstolo e a palavra que fortalece    -   Diante da ferrenha oposição em Tessalônica e Bereia, cidades da Macedônia, Paulo partiu e foi pregar em outras localidades. Em Corinto, porém, aconteceu o contrário. A oposição dos judeus só aumentou sua determinação de permanecer na cidade e continuar seu trabalho. O próprio Deus apareceu a Paulo numa visão e lhe disse: ...Não temas; pelo contrário, fala e não te cales; porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal, pois tenho muito povo nesta cidade (18.9,10). Jesus já havia aparecido a Paulo na estrada para Damasco (9.1-6; 26.12-18) e lhe apareceria no templo (22.17,18). Paulo seria encorajado novamente pelo Senhor quando preso em Jerusalém (23.11) e, posteriormente, em Roma (2Tm 4.16,17). O anjo do Senhor também apareceria a Paulo, em meio à tempestade, para garantir a segurança dos passageiros e da tripulação (27.23-25). Um dos nomes de Jesus é Emanuel — Deus conosco (Mt 1.23), título ao qual ele faz jus.

Howard Marshall diz que a declaração indica a presci­ência divina do sucesso do evangelho em Corinto. Fortalecido por esta mensagem, Paulo podia aguardar o duplo cumprimento: a sua própria proteção contra a perseguição e a evangelização bem-sucedida. Alguns fatos acerca dessa visão merecem destaque.

Em primeiro lugar, uma ordem expressa de Deus. O Senhor é categórico e enfático ao apóstolo, diante das nuvens escuras da perseguição: Não temas; pelo contrário fala e não te cales (18.9). A perseguição produz medo. Após ser apedrejado em Listra e açoitado em Filipos, Paulo podia ser tentado a recuar diante de novos embates. Em vez de temer diante da oposição, Paulo recebe ordens para falar e não se calar. A pregação deve prosseguir mesmo diante da oposi­ção mais implacável.

Em segundo lugar, uma promessa consoladora de Deus. O Senhor conforta o coração do apóstolo dizendo-lhe: ...Eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal... (18.10). A presença de Deus é o nosso escudo protetor. Quando estamos sob as asas do Onipotente, não precisamos temer. Quando estamos escondidos com Cristo, em Deus, nas regiões celestiais, não precisamos temer o ataque do inimigo. O cumprimento da profecia celestial ocorreu quando Gálio se tornou procônsul da província romana da Acaia. A narrativa de Lucas sugere que os judeus lançaram mão da oportunidade oferecida pela chegada de um novo governador para atacar Paulo. O ataque, porém, não prosperou diante do procônsul, e o evangelho recebeu legitimidade por parte da autoridade romana.


3.   Graça suficiente, perseverança e transição    -    O Senhor revela que havia muitos eleitos naquela cidade e cabia a Paulo chamá-los por meio do evangelho: ... pois eu tenho muito povo nesta cidade (18.10b). A doutrina da eleição, longe de anular o ímpeto evangelístico da igreja, deve ser seu maior incentivo. O mesmo Deus que elege os fins, a salvação dos eleitos, também elege os meios, a pregação do evangelho, para chamá-los à salvação. O povo que Deus havia escolhido na cidade de Corinto desde toda a eternidade deveria ser chamado à salvação por intermédio do ministério de Paulo. O próprio Jesus garante que a obra de Paulo em Corinto dará frutos. O próprio Deus destina seu povo para a vida eterna (13.48), abre o coração das pessoas para a mensagem do evangelho (16.14) e as conduz à salvação. Leon Morris observa: “Elas ainda não tinham feito nada para serem salvas; muitas nem sequer haviam escutado o evangelho. Mas elas pertenciam a Deus. Claramente é ele quem as conduziria à salvação na hora certa.

A Bíblia diz que Deus conhece os que lhe pertencem (2Tm 2.19). Jesus conhece suas ovelhas. Ele as chama pelo nome, e elas o seguem. Aqueles que são destinados para a salvação creem (13.48). Nosso papel não é especular sobre a soberania divina na salvação, mas proclamar o evangelho a toda criatura. Nosso trabalho não é especular sobre a eleição dos outros, mas procurar com diligência cada vez maior confirmar nossa própria vocação e eleição (2Pe 1.10). Em vez de teorizar sobre o número dos eleitos, devemos esforçar-nos para entrar pela porta estreita (Lc 13.23,24).Encorajado pela visão, Paulo  permaneceu um ano e meio em Corinto, ensinando a palavra de Deus. Sabemos que Deus abençoou o ministério de Paulo ali, porque havia crentes em toda a província da Acaia (2Co 1.1). No porto da cidade de Cencreia, alguns crentes fundaram uma igreja na qual Febe servia ao Senhor.



                    III.     PAULO DIANTE DE GÁLIO: A GRAÇA QUE SUSTENTA EMMEIO À OPOSIÇÃO (AT 18. 12-17)


1.    A acusação dos judeus e a proteção divina     -     A perseguição não cessou completamente, pois os judeus locais continuaram a opor-se à pregação do evangelho. Dessa forma, eles tentam condenar Paulo, levando-o perante as autoridades civis (vv. 12-17). Como predito na visão, Paulo tem sucesso na evangelização, mas também a mão do Senhor protege-o quando os judeus tentam suprimir a pregação do evangelho. Quando Gálio torna-se procônsul da província romana da Acaia, os judeus de Corinto, oponentes de Paulo, tiram vantagem da chegada de um novo governador atacando o apóstolo. 

Gálio era irmão mais velho de Sêneca, o filósofo estoico que foi tutor de Nero durante um tempo. Uma inscrição encontrada em Delfos menciona Gálio como irmão de Sêneca, a qual nos possibilita datar a chegada de Gálio em Corinto mais ou menos no verão de 51 d.C. Delfos era a sede do santuário de Apolo, que estava situado defronte de Corinto, do outro lado do golfo de Corinto. Paulo aparentemente esteve na cidade em torno de um ano e seis meses (ver At 18.11). Isso quer dizer que Paulo deve ter chegado a Corinto no ano de 50 d.C. Essa é a única data que podemos precisar com exatidão no tocante a todas as viagens do apóstolo dos gentios.

No começo do governo de Gálio (ao redor de julho de 51 d.C.), os judeus em Corinto tentam arregimentar os poderes de Roma ao seu lado contra o movimento cristão. Juntos, os oponentes de Paulo arrastam-no perante o tribunal de Gálio. O tribunal (bema) era uma plataforma elevada na porta da cidade, da qual Gálio presidia e julgava (vv. 16,17). Os judeus tentaram impedir a obra de pregação de Paulo em toda a província (v. 13). Não está claro no versículo 13 se Paulo está sendo acusado de quebrar a lei romana ou a lei judaica, mas essa acusação tem a ver com a lei dos judeus. Se as leis romanas tivessem em questão, era esperado ouvi-los e sentenciá-los. O governador vê as acusações contra o apóstolo como brigas sobre a religião judaica (vv. 14,15). Antes que Paulo pudesse defender-se, Gálio o fez. Gálio mostra a sua impaciência para com os judeus, lembrando-os que Paulo não cometeu crime contra a lei romana.


2.    O espancamento de Sóstenes e o alcance da graça    -    O que aconteceu a seguir não está claro, exceto que então todos agarraram a Sóstenes, chefe da sinagoga, e o espancaram diante do tribunal (cp. v. 8). Alguns manuscritos dão uma explicação sobre quem eram esses todos, mas a melhor versão (adotada por NIV e ECA) deixa o sujeito da ação oculto. Uma sugestão é que, a despeito de Lucas esquecer-se de indicar a mudança de assunto, foi a multidão que se lançou contra Sóstenes. Encorajados pela atitude de Gálio, os gentios demonstraram imediatamente seu desprezo pelos judeus. Outra interpretação seria que os próprios judeus é que bateram nele, como o contexto sugere. Segundo este entendimento do caso, tendo os judeus falhado tão ignominiosamente em conseguir a atenção da autoridade para suas acusações, desabafaram seu ódio em cima de seu próprio líder que apresentara o caso no tribunal. Outra alternativa seria que esse Sóstenes seja o mesmo de 1 Coríntios 1:1 (a coincidência na verdade é notável); embora ainda fosse o líder da sinagoga, teria demonstrado certa inclinação para o lado dos cristãos, à semelhança de seu predecessor Crispo, em razão do que sofreu a ira dos judeus.

 O caso é que Gálio recusou-se a intervir, permitindo que se cometesse uma injustiça contra os judeus, ou destes contra um judeu em particular (como ele próprio teria visto o caso, se Sóstenes agora fosse um cristão). Vê-se pela literatura romana quanto os romanos desprezavam a vida e as questões judaicas (p.e., Cícero, Pro Flacco 28; De Provinciis Consularibus 5; Horácio, Sátiras 4.143; 5.100; 9:69; Tácito, 2.85). De tudo isso, algo positivo talvez tenha sobrevindo a Paulo. Ele deve ter percebido pela primeira vez o potencial total da proteção oferecida pelo estado romano. Se essa proteção era oferecida aqui, como seria na própria Roma? Assim foi que o Espírito teria semeado a semente de uma idéia que gradualmente se tornou o grande objetivo de Paulo (veja a disc. sobre 19:21).


3.    A suficiência da graça na experiência de Paulo    -    A palavra “graça” ocupa lugar central na teologia bíblica. Ela não é apenas o meio pelo qual somos salvos, mas também a base sobre a qual vivemos e servimos a Deus. A experiência do apóstolo Paulo mostra que a graça não elimina dificuldades, mas torna o crente capaz de permanecer firme nelas. A doutrina da graça ocupa posição central na fé cristã. Não se trata apenas de um conceito teológico, mas também de uma experiência contínua na vida cristã. Desde a conversão até a glorificação, tudo é sustentado pela graça. O testemunho do apóstolo

Paulo revela que a graça de Deus não apenas salva, mas também sustenta, capacita e preserva os que foram alcançados por ela. Graça é o favor imerecido de Deus ao dar-nos o seu filho, que oferece a salvação a todos, e dá aos que o recebem como Salvador pessoal uma graça acrescentada para esta vida e uma esperança para o futuro (Rm 11.6; Ef 2.8,9). Graça, portanto, não é recompensa por mérito, mas iniciativa soberana de Deus. Em Cristo, a graça tornou-se visível, acessível e eficaz. A salvação é exclusivamente pela graça (At 15.11; Rm 3.24; Tt 3.5), e nenhuma obra humana pode acrescentar algo à obra de Cristo. A graça produz reconciliação com Deus (Rm 5.1,2; Cl 1.20).

A suficiência da graça para a vida cristã é manifesta da seguinte maneira: a graça sustenta na fraqueza (2 Co 12.7-10); a graça capacita para o serviço (1 Co 15.10; 2 Co 3.5; Hb 12.28); a graça consola em meio às aflições (Is 41.10; At 18.9,10; 2 Co 1.3,4); a graça garante perseverança (2 Co 4.7-9; 2 Tm 4.17,18); a graça ensina-nos a viver em santidade (Rm 6.14; Tt 2.11,12), gerando esperança (Rm 8.18; 1 Pe 5.10). A suficiência da graça é a certeza de que Deus é plenamente capaz de sustentar os seus filhos em todas as circunstâncias. Onde cessam os recursos humanos, a graça começa a agir. Onde a força humana falha, o poder de Deus aperfeiçoa-se. Que essa verdade conduza a Igreja a viver não na autossuficiência, mas na total dependência da graça que basta!

O apóstolo Paulo experimentou em Corinto a suficiência da graça de Deus mesmo diante de intensa oposição, perseguição, fragilidades pessoais e desafios espirituais (At 18.1-11; 1 Co 2.3-5). A cidade de Corinto, marcada pela idolatria e decadência moral, tornou-se palco de uma profunda experiência com o Deus que fortalece os fracos e sustenta os fiéis com a sua graça poderosa. Corinto foi, portanto, um laboratório da graça divina, onde a força de Paulo não estava na sua retórica, mas, sim, na dependência do Espírito Santo!

A graça de Deus gera coragem para continuar mesmo quando o coração está aflito. Paulo foi chamado a continuar pregando. A graça não apenas consola, mas também impulsiona. Não é a ausência de problemas que revela a suficiência da graça, mas a presença do Senhor em meio aos problemas.

Na sua Segunda Carta aos Coríntios, Paulo revela que orou três vezes para que Deus livrasse-o de um “espinho na carne”. A resposta divina foi marcante: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Co 12.9). Essa graça experimentada em Corinto, surgida num contexto de sofrimento e limitação, certamente se tornaria uma marca do seu ministério. Paulo, um homem usado poderosamente por Deus, suplica pela remoção de um espinho na carne. Deus, no entanto, não remove a dor; Ele concede algo maior: a graça suficiente. Isso nos ensina que a graça não é ausência de luta, mas presença de Deus no meio dela. Além disso, a graça capacita o crente para o serviço. Paulo reconhece que tudo o que realizou foi resultado da graça de Deus operando nele (1 Co 15.10). Não é a habilidade humana que sustenta o ministério, mas a graça divina. É ela que transforma servos frágeis em instrumentos eficazes.

Por fim, a graça também educa e transforma o caráter do crente. Conforme Tito 2.11,12, a graça que salva é a mesma que ensina a viver em santidade. Assim, a suficiência da graça não gera acomodação, mas compromisso; não produz negligência espiritual, mas obediência amorosa. A graça que sustentou Paulo foi a mesma que chamou e santificou aqueles irmãos (1 Co 1.2). Apesar de todos os obstáculos, Paulo permaneceu dezoito meses em Corinto e ali estabeleceu uma igreja. Como Paulo, precisamos reconhecer que é em nossa fraqueza que se aperfeiçoa o poder de Deus.

A dependência da graça de Deus é uma das verdades mais profundas e, ao mesmo tempo, mais negligenciadas da vida cristã. Muitos compreendem que a salvação é pela graça, mas passam a viver como se o crescimento espiritual e a perseverança dependessem exclusivamente do esforço humano. A Escritura, contudo, ensina que toda a jornada cristã é sustentada pela graça do início ao fim.

O apóstolo Paulo declara com clareza: “[...] pela graça sois salvos” (Ef 2.8). Entretanto, o mesmo apóstolo também afirma: “Pela graça de Deus, sou o que sou” (1 Co 15.10). Essa confissão revela que a graça não apenas nos alcança no momento da conversão, como também nos acompanha diariamente. Viver na dependência da graça é reconhecer que nada podemos realizar sem a ação contínua de Deus em nós. O próprio Jesus ensinou essa verdade (Jo 15.5). Essa declaração elimina qualquer ilusão de autossuficiência espiritual. O ramo não produz fruto por si mesmo; ele depende da videira. Da mesma forma, o cristão só pode viver de maneira frutífera quando permanece ligado a Cristo, confiando na sua graça. A experiência de Paulo ilustra claramente essa dependência. Ao enfrentar fraquezas, limitações e sofrimentos, ele ouviu do Senhor que a graça dEle bastava (2 Co 12.9). 

Deus não removeu o espinho, mas concedeu graça suficiente. Isso nos ensina que a graça não é ausência de dificuldades, mas presença divina que sustenta em meio a elas. O episódio de Corinto reforça essa verdade. Em meio ao medo e à perseguição, Deus disse a Paulo: “Não temas […] porque eu sou contigo” (At 18.9,10). A presença de Deus foi a fonte da sua coragem e perseverança. Paulo permaneceu ali por longo tempo, não por causa da sua força, mas porque estava sustentado pela graça. Além disso, a graça também educa o crente. De acordo com Tito 2.11,12, a graça ensina-nos a negar a impiedade e a viver de modo santo. Depender da graça não é, portanto, viver de forma negligente, mas submissa; não é passividade, mas confiança ativa em Deus.

Concluímos que viver na dependência da graça é o chamado diário do cristão; é reconhecer nossa fragilidade, confiar plenamente no Senhor e caminhar sustentados pela sua misericórdia. Quando aprendemos a depender da graça, experimentamos a verdadeira liberdade espiritual e a plenitude da vida em Cristo





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AUTOR: PB. José Egberto S. Junio, formato em teologia pelo IBAD, Profº da EBD. Casado com a Mª Lauriane, onde temos um casal de filhos (Wesley e Rafaella). Membro da igreja Ass. De Deus, Min. Belém setor 13, congregação do Boa Vista 2. 

Endereço da igreja Rua Formosa, 534 – Boa Vista - Suzano SP.

Pr. Setorial – Pr. Saulo Marafon.

Pr. Local: Pr. Selmo Pedro.

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         BIBLIOGRAFIA


Bíblia Almeida Século 21

Bíblia de estudo das Profecias

Livro de apoio A Igreja dos Gentios - Pr. Wagner Gaby - Editora CPAD

Comentário Exegético Vol. 2 Craig S. Keener - Editora CPAD

Estudo Livro de Atos - Myer Pearlman - Editora CPAD

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Novo Comentário Bíblico Contemporâneo




segunda-feira, 27 de julho de 2026

LIÇÃO 05 - CRISTO ENTRE OS FILÓSOFOS: O DEUS DESCONHECIDO SE REVELA.

Pb. Junio - Congregação Boa Vista II

 



                    TEXTO ÁUREO

"Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, em todo lugar, que se arrependam." (At 17.30)


                VERDADE PRÁTICA

A obra evangelística floresce quando o coração, sensível ao Espírito, discerne os tempos e proclama com ousadia a graça salvadora de Cristo.


LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: Atos 17. 15-20, 30-32



                        INTRODUÇÃO

 

Na época da chegada de Paulo a Atenas (meados do século I d.C.), a cidade já havia perdido a sua glória política e militar de outrora, mas continuava a ser um centro cultural e intelectual importante. Famosa pelos seus filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles, dava tanta ênfase às artes, à poesia e à filosofia como nenhuma outra cidade. Atenas tinha cerca de cinco mil cidadãos. A Grécia não era uma superpotência militar, e Atenas era politicamente insignificante. Apesar disso, a cidade ainda servia de grandíssimo interesse cultural, sendo conhecida como a capital da sabedoria grega e berço da democracia. A cidade era um destino de passagem obrigatória para estudantes e filósofos, que buscavam as suas academias e escolas para estudar filosofia, retórica e outras artes liberais.

 A sua importância era cultural, e não política. Embora os romanos admirassem e absorvessem a cultura grega, o poder político e a administração do vasto império estavam concentrados em Roma. Portanto, enquanto Atenas era um venerável e ativo centro de erudição e filosofia, a sede do império e o coração da vida política e social era Roma. Contudo, por trás da sua sofisticação, havia uma religiosidade profundamente idólatra e politeísta. Lucas registra a reação de Paulo, que se comoveu ao ver a cidade “entregue à idolatria” (At 17.16). Os debates filosóficos continuavam a ser uma característica proeminente da cidade, como evidenciado pelo relato bíblico da visita de Paulo ao Areópago, onde o apóstolo dialogou com filósofos epicureus e estóicos (At 17.16-34).


                I.     CONTEXTO HISTÓRICO, CULTURAL E RELIGIOSO DE ATENAS


1.    Atenas o centro intelectual marcado pela idolatria (At 17.16)    -     O que Paulo primeiro viu em Atenas não foi sua beleza, nem o brilhantismo da cidade, mas sua idolatria. Howard Marshall diz que é nesta cidade aspergida e bafejada pela mais refinada intelectualidade, adornada pelos mais ilustres pensadores do mundo, que Paulo encontra a mais aguda crônica de ignorância espiritual. E aqui, na terra dos corifeus da filosofia, que Paulo se defronta com a mais tosca e repugnante idolatria. A palavra kateidolos só aparece aqui em todo o Novo Testamento. A tradução indica não apenas que a cidade estava cheia de ídolos, mas sob os ídolos. A cidade estava sufocada pelos ídolos. O que Paulo viu foi uma verdadeira floresta de imagens. Na teologia paulina, os ídolos nada são, mas por trás deles estão os demônios. A idolatria produz cegueira espiritual e desordem moral. Plínio afirmou que, ao tempo de Nero, Atenas estava ornamentada por mais de trinta mil estátuas públicas. Petrônio disse que era mais fácil encontrar um deus em Atenas do que um homem. 

Xenofonte, citado por Champlin, assim descreveu a cidade: “O lugar inteiro é um altar, e a cidade inteira é um sacrifício e uma oferta aos deuses”. Russell Champlin também diz que certa feita, Diógenes saiu às ruas de Atenas em pleno meio-dia, sol a pino, de lanternas acesas nas mãos, procurando atentamente alguma coisa. Alguém, surpreso, interpelou-o: “Diógenes, o que procuras?”. Ele respondeu: “Eu procuro um homem”. Havia mais deuses em Atenas do que em todo o resto do país. Eram inúmeros templos, santuários, estátuas e altares. No Parthenon encontrava-se uma imensa estátua de Atena feita de ouro e mármore. Em toda parte se viam imagens de Apoio, o padroeiro da cidade, de Júpiter, Vênus, Mercúrio, Baco, Netuno, Diana e Esculápio. Todo o panteão grego estava ali, todos os deuses do Olimpo. E as imagens eram lindas, feitas de ouro, prata, marfim e mármore, construídas pelos melhores escultores gregos.

Não apenas os olhos de Paulo estavam abertos, mas também o seu coração estava disposto a auscultar a mais intelectual cidade do Império. Lucas registra: O seu espírito se revoltava (17.16). O verbo grego paroxyno, de onde vem a palavra “paroxismo”, tinha conotações médicas e se referia a um ataque epilético. Também significava “irritar, provocar, causar ira”. Essa palavra só ocorre novamente em lCoríntios 13.5: O amor não se exaspera. O sentido aqui não é falta de controle, mas de reação progressiva e ponderada contra aquilo que Paulo viu. O verbo paroxyno é regularmente empregado na LXX em relação à ira de Deus contra a idolatria do povo de Israel (Dt 9.7,18,22; SI 106.28,29; Os 8.5). Assim, Paulo foi provocado à ira pela mesma razão que provocou a ira de Deus, ou seja, a idolatria.534 A idolatria é um pecado gravíssimo porque rouba a honra e a glória do nome de Deus. E dar a outro ser a honra e a glória que só Deus merece. 


2.    O início da evangelização na sinagoga (At 17. 17a)     -     O método paulino de apresentar o evangelho é o mesmo empregado em Tessalônica (At 17.2). O evangelho que Paulo pregava tinha como foco inicial os judeus e, posteriormente, os gentios (Rm 1.16). O método de Paulo na sinagoga era de argumentação e persuasão, dialogando com judeus e gentios tementes a Deus com base nas Escrituras judaicas, buscando convencê-los a respeito do Reino de Deus. Esse método diferia da sua abordagem posterior no Areópago, que se adaptou à cultura e filosofia gregas. Atos 17 relata que, na sinagoga de Atenas, Paulo argumentou com os judeus e os gentios tementes a Deus, mas não há menção de uma aceitação em massa ou de uma rejeição violenta por parte dos judeus daquela cidade, como ocorreu em outras localidades. Paulo “disputava na sinagoga entre os judeus e os gentios piedosos” diariamente. Isso indica um debate ou discussão das Escrituras, o que era um procedimento comum para ele. Diferentemente de cidades como Tessalônica ou Bereia, onde a pregação de Paulo gerou aceitação por parte de alguns, mas também perseguição intensa por parte de outros judeus, o relato em Atenas não descreve a formação de um grupo de crentes judeus nem a oposição organizada deles.


3.    A proclamação do Evangelho na ágora ( At 17. 17b)     -     A Ágora, ou praça, era o centro dos negócios e das atividades cívicas, como também da propaganda e da troca informal de ideias e novidades. Servia ainda de mercado e centro da vida social, local de reunião onde se congregava o povo para ouvir os oradores. Paulo falava nessa praça não apenas no sábado, mas todos os dias. Em outras palavras, Paulo não limitou seu ensino aos judeus e tementes a Deus aos sábados na sinagoga local. Durante o restante da semana, ensinava na praça do mercado, onde as pessoas iam comprar alimentos e outras mercadorias. O equivalente à Agora pode ser um parque, uma praça, um shopping, uma feira, uma sala de aula, uma cantina de escola. Há grande necessidade de evangelistas talentosos, capazes de fazer amigos e conversar sobre o evangelho em locais informais desse tipo. Paulo se misturava com o povo na praça. Não fugia das pessoas. Paulo não se encastelava numa torre de marfim. Não se empoleirava numa cátedra proclamando formulações teológicas na terra dos corifeus da filosofia. Paulo não era um teólogo de gabinete. Nivelava-se com o povo e descia até onde o povo estava. Mas também conversava com os intelectuais.


                    II.    OS FILÓSOFOS EPICUREUS E OS ESTOICOS (AT 17. 18-21)


1.    Os epicureus: o prazer como finalidade da vida (At 17.18)     -     Os epicureus ensinavam que o bem supremo é o prazer ou a felicidade (gr. hefone); mas é o prazer da mente e da vida inteira, e não o deleite dos caprichos e instintos momentâneos. Por “prazer”, Epicuro não se referia aos desejos sensuais (“como alguns, por ignorância, preconceito ou interpretação deliberadamente equivocada, entendeu que “somos”, mas “a ausência de sofrimento no corpo e de inquietação na alma”. Ele não defendia festas com bebida, sexo e alimento, mas o raciocínio sóbrio. Na realidade, Epicuro via o sexo como potencialmente prejudicial e, em geral, desencorajava o casamento. As consequências de todas as ações devem ser consideradas antes de deleitar-se em uma atividade ou mesmo aprová-la.

Os filósofos epicureus buscavam o prazer moderado e a ausência de sofrimento como bem supremo. Eram materialistas e negavam a providência divina, os milagres, a profecia e a imortalidade. Não acreditavam em nenhum deus, exceto de nome. Eles negavam que os deuses exercessem qualquer governo sobre o mundo ou os seus habitantes. Para os epicureus, a divindade, por sua natureza, era transcendente e indiferente ao sofrimento humano. Para os Epicureus, mente e alma consistiam de partículas minúsculas de algo como ar, dispersas pelo corpo e afetando-o. Portanto, a alma, o ser material, pereceu na morte; nem bem-aventurança, nem aflição aguardam os seres humanos após a morte.

 No fim do século I, Josefo declarou que as predições de Deus a Daniel refutavam as declarações epicureias que “exclui a Providência da vida humana e recusa-se a acreditar que Deus governa os assuntos da vida humana”. Epicuro repudiava a astrologia e ensinava que a religião era uma superstição; dizia que, para ser feliz, era necessário ser liberto do medo dos deuses. Também ensinava que “o prazer é o companheiro inseparável da virtude”. Os seus seguidores, porém, mudaram essa doutrina, chegando, por fim, a ensinar que o prazer é o fim principal da vida. Sustentavam que o mais importante consistia em satisfazer os apetites e que o prazer era a única finalidade da vida. Em última análise, o ensino deles era: “Comamos e bebamos que amanhã morreremos”. Se a morte fosse o fim de tudo, então apreciar cada momento seria o mais importante. Os cristãos, porém, sabem que existe vida além-túmulo e que nossa vida na terra é só uma preparação para a vida eterna. O que você faz hoje é importante para a eternidade. Levando-se em conta a eternidade, pecar é uma atitude tola.


2.    Os estoicos: razão, destino e impessoalidade divina (At 17.18)     -    Deus não era um ser pessoal no estoicismo, mas uma força espiritual ou energia mental imanente aos homens e às coisas. Ele recebeu muitos nomes, como: Logos ou Razão, Natureza, Providência, Espírito divino e outros. A sua substância era o mundo todo e também o Céu. O bem supremo era obedecer à razão ou à virtude, suprimir as emoções e conduzir-se conforme o que a natureza ordenasse. No fim, haveria uma reabsorção no mundo da alma, mas nenhuma imortalidade individual.

Ambas as escolas negavam a ressurreição do corpo; a primeira negava a imortalidade da alma (v. 18). Os poetas citados por Paulo (At 17.18ss), eram os estóicos Aratus (Phaenomena) e Cleanthes (Hino a Zeus). A filosofia estóica foi adotada por muitos romanos como Sêneca, tutor de Nero, e o imperador Marco Aurélio. O pensamento estoico foi propagado e afetou a cultura popular no século I. O imperador Cláudio empregou o filósofo estóico Sêneca para educar membros da família.

No fim do século I, os líderes de Roma também viam favoravelmente o estoico Musônio Rufo. O estoicismo era a seita mais popular no período, em especial entre os envolvidos nos assuntos públicos. Outros grandes estoicos foram Crisipo de Solos, Epiteto, Lúcio Aneu Cornuto e Caio Musônio Rufo. Essa filosofia, muito influente no período helenista, foi admitida por Sócrates, Aristóteles e pelas escolas cínicas. Os estóicos, em contraste com os epicureus, associavam o prazer ao vício, embora a alegria de espírito fosse boa.

Das principais escolas filosóficas gregas, apenas o estoicismo preocupava-se com ajustar os deuses ao seu esquema; embora a sua percepção dos deuses não fosse convencional, a piedade popular iria considerá-la muito mais aceitável do que os seus competidores. Eles falavam do Logos que designava e governava o cosmos (ver At 17.26). Eles também enfatizavam o destino. Os estoicos, apesar de serem originalmente monistas e, por isso, panteístas (ver At 17.28), no início do império falavam de “Deus” de um modo mais pessoal, usando também durante muito tempo a linguagem de amizade com Deus. 

O elemento panteísta, no entanto, nunca esteve completamente ausente; por isso, o verdadeiro Júpiter não só era o guardião do Universo, como também a alma e espírito do mundo.

A apologética estoica para a existência e a natureza da divindade lembra o argumento de Paulo em Atos 17. Os estoicos podiam argumentar que os deuses existem e, a seguir, definir o caráter deles e, depois, as necessidades da humanidade. Esse esboço básico do argumento era bastante conhecido para servir como um modelo para o esboço do discurso de Paulo no Areópago, naturalmente recomendando mais uma vez o discurso mais para os estoicos do que para os epicureus. Paulo, distante de pregar deuses estranhos (At 17.18), chama os seus ouvintes a abandonar os falsos deuses, voltando-se para o único Deus verdadeiro, que não está longe de cada um deles (At 17.27). Eles levaram Paulo a um tipo de audiência oficial; ele adverte-os do julgamento iminente contra a idolatria (At 17.30,31). Essa coragem dificilmente seria característica do estrangeiro normal em busca de hospitalidade nem de alguém sendo avaliado numa audiência (At 7.51-53), mas era uma forma retórica boa em alguns cenários (ver At 4.13).


3.     Paulo levado ao areópago: o Evangelho diante da cultura (At 17. 19-21)     -    O areópago era a instituição mais venerável de Atenas; sua história perde-se em tempos legendários. A despeito de grande parte de seu poder ter sido podado, o areópago continuou a gozar de imenso prestígio.

Suas funções tinham variado, de tempos em tempos. Em certos períodos, sua jurisdição ficara limitada a casos de crimes de pena capital. Noutras épocas, o areópago esteve relacionado a vasta gama de pendências religiosas, educacionais, políticas e legais, como nessa época em foco (segundo nos parece), visto que o demos estava praticamente extinto. (Atenas era uma cidade livre, com direito de dirigir seus próprios empreendimentos.) O areópago tomou seu nome de uma pequena colina postada bem à frente da Agora (praça) — a colina de Ares — em que se esculpira um lance de degraus, no lado sudeste; fragmentos remanescentes de bancos esculpidos na rocha podem mostrar onde os conselheiros costumavam reunir-se. Todavia, com o passar do tempo, tornou-se costumeiro que o conselho se reunisse noutros lugares, talvez numa área demarcada com cordas, na Stoa Basileios, no canto noroeste da Agora (veja J. Finegan, "Areópago", IDB, vol. 1, p. 217).

A primeira pergunta foi, literalmente: "Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas? " (v. 19), mas sem ouvirmos o tom de voz, torna-se impossível saber se a pergunta foi formulada com cortesia ou com sarcasmo; todavia, visto que o texto grego recebe alguma ênfase na frase nova doutrina, talvez a pergunta seja mesmo sarcástica. Devido, quem sabe, a essa atitude e à reação imprópria desses homens diante de um assunto que Lucas julgava ser da maior importância, o autor ficou mal impressionado com os atenienses. Num aparte ele comenta que os atenienses tinham mentalidade rasa, pois de nenhuma outra coisa se ocupavam (o imperfeito indica que esses eram os hábitos deles), senão dizer e ouvir a última novidade (v. 21), e nunca (por implicação) levar a sério o que ouvem. Tampouco Lucas emitiu opinião própria, isto é, dele mesmo. Era opinião compartilhada por alguns de seus próprios patrícios (Tucídides, História da Guerra do Peloponeso 3.38; Demóstenes, Primeira Filípica 43; Carta de Filipe 156s.)



                III.     O DISCURSO DE PAULO NO AREÓPAGO


1.    Observação cultural como ponto de contato com o Evangelho (At 17. 22-23)     -     Fosse qual fosse o espírito com que a pergunta tivesse sido feita, Paulo a tomou com seriedade e assim se pôs a responder a ela. Levantou-se e dirigiu-se aos homens no mesmo estilo de oratória deles ("homens atenienses"; mas veja a nota sobre 1:16), e faz uma observação: em tudo vejo que sois muito religiosos (v. 22). A palavra traduzida por "religiosos" (deisidaimonesterous) pode ter um sentido mau, ou bom (o substantivo correspondente parece que foi usado de modo pejorativo em 25:19). O adjetivo aqui está no grau comparativo, e tanto pode significar que eram mais devotos que a maioria na prática de sua religião, como que eram mais supersticiosos. É provável que Paulo tenha escolhido deliberadamente essa palavra, com gentil ambigüidade, a fim de não ofender seus ouvintes, almejando ao mesmo tempo satisfazer-se, ao expressar o que pensava deles.

Logo esses homens ficariam sabendo qual era a opinião de Paulo a respeito deles. Por ora, abundavam as evidências, por todos os lados, de que eram de fato "muito religiosos". Uma das inscrições em particular havia atraído a atenção de Paulo. O apóstolo havia observado um altar com esta dedicatória: AO DEUS DESCONHECIDO (v. 23). Paulo tomou essas palavras como se fora "seu texto". É claro que não havia nenhuma ligação entre esse deus e o Deus que ele proclamava. O apóstolo não sugeriu em momento algum que eram adoradores inconscientes do verdadeiro Deus, mas procurou apenas um meio de levantar perante eles a questão básica da teologia: Quem é Deus? 


2.    O Deus Criador, Sustentador e Senhor da História (At 17. 24-29)     -      Os epicureus, que também eram ateus, afirmavam que tudo era matéria e que a matéria sempre existiu. Os estoicos, que eram panteístas, diziam que tudo era Deus, o “Espírito do Universo”. Os epicureus alegavam que Deus não existia, e os estoicos defendiam que tudo era Deus. Paulo, porém, pregou em Atenas tanto a transcendência como a imanência de Deus. Deus não está distante nem separado da criação; não está cativo nem preso a ela. Deus é grande demais para ser contido em templos feitos por mãos humanas (lR s 8.27; Is 66.1,2; At 7.48-50), e ao mesmo tempo solidário o suficiente para cuidar das necessidades humanas (17.25).545 Paulo coloca a revelação no lugar da filosofia e contrasta o monoteísmo com o panteísmo estoico.

A matéria não é eterna como pensavam os gregos. O mundo não resulta de uma explosão cósmica, nem é fruto de milhões e milhões de anos de evolução. Paulo declara em Atenas, a capital intelectual do mundo, que Deus fez o mundo e tudo o que nele existe (17.24). O livro A origem das espécies, de Charles Darwin, publicado em 1859 em Londres, contém nada menos do que oitocentos verbos no futuro do subjuntivo: “suponhamos”. A evolução é uma suposição improvável, uma teoria falaz. Tanto o macrocosmo quanto o microcosmo denunciam as incongruências da teoria da evolução.

Hoje sabemos que todo ser vivo é programado e automatizado em fitas DNA. O código da vida existe porque Deus o elaborou e o escreveu nas moléculas de DNA que controlam todas as formas de vida. Dominico Rivaldo diz que segundo o dr. Marshall W. Nirenberg, prêmio Nobel de Biologia, em cada corpo humano adulto há 60 trilhões de células vivas. Em cada célula há 1,70 metro de fita DNA, contendo a programação genética de todo nosso ser, como cor do cabelo, cor dos olhos, da cútis, tamanho, temperamento e outras características. De quem derivou este fantástico projeto? Quem é o autor dessa programação e gravação biogenética? Certamente só pode ser alguém que está acima da matéria e da energia. A ciência prova que o universo foi feito de matéria e energia. Prova também que o universo é governado por leis. De igual forma, atesta que matéria e energia não criam leis. Logo, alguém acima, fora e distinto do universo as criou.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

LIÇÃO 04 - O ESPÍRITO QUE NOS GUIA PARA ALÉM DAS FRONTEIRAS.

Pb. Junio - Congregação Boa Vista II

 


                TEXTO ÁUREO

"De sorte que as igrejas eram confirmadas na fé e cada dia cresciam em número." (At 16.5)


               VERDADE PRÁTICA


O Espírito Santo não apenas guia o cristão em seus passos, mas também o impede de avançar quando isso não está em acordo com a vontade de Deus.


LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: Atos 16. 11-18; 25-31


                INTRODUÇÃO


O presente capítulo apresenta a ação soberana do Espírito Santo, que conduz Paulo e Silas à Macedônia, estabelecendo a primeira igreja cristã em solo europeu. A segunda viagem missionária de Paulo constitui um dos capítulos mais notáveis da história da Igreja Primitiva e do avanço do evangelho. Ela é um divisor de águas na história da vida cristã. Na sua narrativa, o livro de Atos demonstra a transição decisiva do cristianismo, que, até então, florescia entre os judeus para o mundo gentílico. Mediante a obediência dos servos de Deus e da direção do Espírito Santo, o evangelho rompe fronteiras culturais e geográficas, alcançando o continente europeu, a começar pela cidade de Filipos, principal cidade da Macedônia. 

O capítulo 13 de Atos marca uma grande virada na narrativa do livro. Até aqui, o foco estava principalmente em Jerusalém e na evangelização dos judeus. A partir daqui, a atenção volta-se para a missão entre os gentios, sendo transferida para Antioquia da Síria, onde havia nascido uma igreja marcada por forte ardor missionário. Os capítulos 13 a 28 descrevem a propagação do evangelho na extremidade oriental do mundo Mediterrâneo e em direção ao ocidente até Roma, a capital do Império Romano.

O texto de Atos 16–40, por sua vez, não narra apenas fatos históricos, mas também revela a dinâmica espiritual da missão: Deus direciona, abre corações, liberta oprimidos e salva famílias inteiras. Aqui encontramos o retrato da Igreja em ação: evangelizando, libertando e adorando mesmo em meio à perseguição. Essa passagem mostra que a expansão da Igreja é resultado direto da soberania de Deus e da fidelidade dos seus servos. Cada personagem — Lídia, a jovem possessa e o carcereiro — simboliza um aspecto do poder do evangelho que transforma todos os tipos de pessoas.

A expansão da Igreja, portanto, não é obra humana, e sim fruto da ação soberana de Deus, que guia os seus servos e transforma realidades. O Espírito Santo é o protagonista do livro de Atos, e as viagens missionárias de Paulo são um testemunho vivo de que a Igreja existe para ser missionária. A evangelização, o discipulado e o envio constituem a essência da identidade cristã.


                I.    LÍDIA: QUANDO O ESPÍRITO ABRE O CORAÇÃO E FUNDA UMA IGREJA


1.    A direção soberana do Espírito na segunda viagem missionária     -     O apóstolo Paulo era um homem de visões: “E Paulo teve de noite uma visão” (At 16.9; cf. 9.12; 18.9; 22.18; 26.19; 2 Co 12.1). Essas visões que Paulo teve eram, às vezes, para encorajar e, outras vezes — como aqui, por exemplo —, para dirigi-lo ao trabalho. Um anjo apresentou-se diante dele para dizer-lhe que era da vontade de Jesus que ele fosse à Macedônia. Disse-lhe também que não se deixasse abater pelos impedimentos e proibições que se lhe ocorriam repetidamente pelos quais as suas intenções eram interceptadas. Embora não fosse aonde queria ir, Paulo iria aonde Deus tinha trabalho para ele fazer.

A Deus não faltam maneiras para dirigir os seus filhos. Ele pode dirigi-los mesmo por meio de visões e por meio de sonhos (ver At 2.17). Apesar de ser durante a noite, Paulo foi dirigido por uma visão e não por sonho. Na visão, apresentou-se diante dele um varão da Macedônia. O apóstolo é chamado para ir lá por um varão da Macedônia, que fala em nome dos demais. O anjo não deve anunciar o evangelho aos macedônios, mas tem de levar Paulo a eles; nem deve, pela autoridade de um anjo, ordená-lo que vá, mas deve, na pessoa de um macedônio, solicitá-lo que venha. Esse macedônio honesto rogava-lhe, dizendo: “Passa a Macedônia e ajuda-nos!” (16.9).

Lucas, o autor de Atos, passa a empregar pela primeira vez a forma do verbo na primeira pessoa do plural, indicando que ele mesmo se ajuntara ao grupo de missionários:

“E logo depois desta visão, procuramos partir para a Macedônia, concluindo que o Senhor nos chamava para lhes anunciarmos o evangelho” (v. 10). A interpretação da visão que o apóstolo Paulo teve foi que eles estavam prontos para ir aonde quer que fossem dirigidos por Deus. Podemos concluir que Deus certamente nos chama quando somos chamados por alguém. Se o varão da Macedônia diz “Vem e ajuda-nos”, Paulo, então, conclui que Deus diz: “Vá e ajude-os”. 

Os ministros trabalham com grande alegria e ânimo quando percebem que foram chamados por Jesus Cristo não só para anunciar o evangelho, mas também para anunciá-lo naquele momento, naquele lugar e àquele povo. O maior dos apóstolos nem sempre esperava uma visão para descobrir o lugar onde devia trabalhar. Para ele, o fato de um campo não ter o evangelho era suficiente para entrar e iniciar a obra. E isso fazia se o Senhor permitisse-lhe ou não o impedisse (vv. 6,7).


2.    Fé sincera, sensibilidade espiritual e hospitalidade de Lídia     -     16:14-15/pelo menos uma dessas senhoras converteu-se, embora não necessariamente na primeira reunião. O tempo imperfeito do verbo "ouvir" no v. 14 sugere que ela ouviu os missionários mais de uma vez. Seu nome era Lídia, que também era o nome de seu país — conquanto este não tivesse independência, absorvido que fora pela província da Ásia. Lídia era da cidade de Tiatira. Uma das indústrias mais estáveis dessa cidade era a das tinturas, sendo dessa cidade que Lídia, a cidadã, talvez comprasse sua púrpura (v. 14). Era um comércio de luxo, pelo que essa senhora deve ter sido relativamente rica para poder trabalhar nessa área. 

Ela seria uma contribuinte, portanto, junto com muitos outros membros dessa igreja, que enviaram sustento pastoral a Paulo em várias ocasiões (Filipenses 4:10ss.; 2 Coríntios ll:18s.). Ela é descrita como pessoa que servia a Deus (v. 14, isto é, uma mulher temente a Deus; veja a nota sobre 6:5). Talvez ela tenha conhecido a doutrina judaica em Tiatira, visto que os judeus dessa cidade estavam envolvidos no comércio de tingimento de tecidos. Assim foi que o caminho para o evangelho lhe fora preparado de antemão. No entanto, Lucas atribui a prontidão de Lídia para que estivesse atenta ao que Paulo dizia (v. 14) a algo mais do que simples contexto ambiental. 

O Senhor lhe abriu o coração (v. 14; cp. Lucas 24:25; veja a disc. sobre 2:47). Isto sempre deve acontecer. Sem diminuir de modo algum a importância do arrependimento e fé, e a da pregação da fé em Cristo, não pode haver vida em Cristo sem o poder do Espírito Santo: "nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo" (1 Tessalonicenses 1:5; cp. Efésios 1:18). Todavia, Lucas o menciona agora talvez para mostrar que assim como Deus os havia chamado para sua obra, assim ele confirma esse chamado operando no meio deles (cp. 14:27). Todos haviam pregado às mulheres ("falamos às mulheres que ali se reuniram", v. 13), mas Lucas atribui a conversão de Lídia, no que concerne à instrumentalidade humana, à atuação de Paulo que, sem dúvida, era o principal preletor. Assim foi que Lídia se tornou crente fiel ao Senhor (v. 15). 

Ela e a sua casa, isto é, seu estabelecimento todo, o lar e o negócio empresarial, e foram batizados. É possível que Evódia e Síntique, e as demais senhoras de Filipenses 4:2s., estivessem nesse grupo (veja anota sobre 2:38 quanto ao batismo, e a nota sobre 10:48 quanto à inclusão da casa). Lídia expressou sua fé mediante boas obras (cp., p.e., 10:46; 19:6), persuadindo os visitantes a aceitarem sua hospitalidade durante o tempo em que permanecessem na cidade (veja a disc. sobre 9:6ss. quanto ao hábito de Lucas de mencionar os anfitriões de Paulo). Sem dúvida o nome dessa mulher veio a tornar-se o da primeira "igreja" em Filipos (a tradição a coloca no vilarejo que tomou o nome dela, não muito longe das ruínas de Filipos; veja a disc. sobre 14:27 e as notas). Alguns acham que ela teria sido o "meu leal companheiro de jugo" de Filipenses 4:3.


3.    A pregação em Filipos: simplicidade, graça e poder transformador    -      No sábado, o grupo saiu (saímos fora das portas, para a beira do rio) à procura de quaisquer judeus que lá teriam ido para cultuar a Deus. Pelo texto grego, eles simplesmente saíram "fora dos portões", mas entendemos que tais "portões" eram os da cidade, não aparecendo esse adendo em ECA. Todavia, é possível outro entendimento. Cerca de dois quilômetros a oeste da cidade, na via Ignácia, ficava uma arcada romana, hoje em ruínas; um pouco além corria o rio Gangites, tributário do Estrimão. A construção de uma arcada desse tipo com freqüência acompanhava a fundação de uma colônia, tendo a intenção de simbolizar ;i dignidade e privilégios da cidade. 

Poderia delimitar também opomerium, uma linha que englobava um espaço vazio, fora da cidade, dentro do qual não se permitiam edificações, sepultamentos, nem a realização de cerimônias religiosas estranhas. É possível, portanto, que os judeus tivessem sido forçados a realizar seus cultos e reuniões além desses limites, depois do portão. Foi aqui que os missionários esperavam encontrar um lugar para oração. No grego há apenas uma palavra, proseuche, que pode significar ou o ato de orar ou o lugar onde se ora; neste sentido, pode denotar um edifício (p.e., uma sinagoga). Entretanto, o emprego da palavra por Lucas, aqui, talvez signifique que não existia um edifício, apenas um lugar costumeiro de reunião ao ar livre. Quando os judeus eram obrigados a reunir-se desta forma, tão longe da cidade, faziam-no perto de um rio, ou do mar, de modo que ficasse mais fácil praticar as abluções cerimoniais; seria esse o caso em Filipos, segundo nos parece. 

Paulo e seus companheiros encontraram ali algumas mulheres — a ausência de homens poderia explicar a ausência de uma sinagoga, visto que pelo menos dez homens eram necessários para organizar-se uma sinagoga. Todos se assentaram (assentando-nos [essa era a postura usual durante a aula entre os judeus, embora neste caso possa significar apenas informalidade] e puseram-se a conversar [falamos às mulheres que ali se reuniram]). Se considerarmos a diminuta consideração que os antigos judeus tinham pelas mulheres como pessoas a quem se ministrariam aulas, lembramos de novo, em comparação, de como as mulheres assumem papel importante na história de Atos (veja a disc. sobre 1:14).


                II.      A LIBERTAÇÃO DA JOVEM POSSESSA E O CONFRONTO COM OS PODERES DAS TREVAS


1.   A expulsão de um espírito de adivinhação (Vv. 16-18)    -    As perseguições que Paulo sofreu vieram da parte dos judeus. Agora temos a primeira perseguição movida contra ele exclusivamente pelos gentios. Uma adivinha endemoninhada seguia Paulo e Silas clamando, maliciosamente ou sobrenaturalmente constrangida: “Estes homens, que nos anunciam o caminho da salvação, são servos do Deus Altíssimo”. Parece que Satanás, às vezes, empregava o truque do testemunho para causar empecilhos ao Evangelho. Leva alguns de seus agentes a se pronunciarem seguidores da obra evangelística. Seu objetivo é desacreditar o Evangelho, fazendo com que o povo em geral tenha péssima impressão dos cristãos. Se aquela pobre possessa tivesse continuado a gritar atrás de Paulo, todos teriam dito: “Aí vai uma das convertidas dele!” Isto não seria um elogio à obra de Paulo. O Senhor Jesus não convidava nem permitia a continuação do testemunho de demônios (ver Mc 1.23-25). Dias depois, Paulo já não aturava esta publicidade indesejável, e expulsou o demônio da mulher: “Em nome de Jesus Cristo, te mando que saias dela”.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

LIÇÃO 03 - A GRAÇA QUE ALCANÇA TODAS AS NAÇÕES.

Pb. Junio - Congregação Boa Vista II

 


                TEXTO ÁUREO

"Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus." (Ef 2.8)


                VERDADE PRÁTICA

É pela graça que somos alcançados, perdoados e reconciliados com Deus.


LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: Atos 15. 1-5, 28, 29, 36-39



                        INTRODUÇÃO

À medida que cada vez mais crentes incircuncisos entravam na igreja, os temores dos cristãos judaizantes aumentaram, pois o Reino, rejeitado pela maioria dos judeus, estava sendo povoado rapidamente pelos convertidos entre os gentios. Isso parecia contrário às promessas e alianças especiais do Antigo Testamento, e os judaizantes começaram a fazer campanha a favor da circuncisão de todos os gentios convertidos para que pudessem pertencer à assembleia de Israel. Por outro lado, Paulo e Barnabé tinham sido favorecidos por revelações de Deus na sua convicção em uma nova época em que a igreja era universal e espiritual e de, forma nenhuma, poderiam sujeitar-se às exigências legalistas do judaísmo. 

“Tendo tido Paulo e Barnabé não pequena discussão e contenda contra eles” (At 15.2) 

De modo nenhum, os apóstolos concordaram com tal ensinamento; apresentaram-se e publicamente a rebateram. Eles defenderam que a salvação é pela graça, mediante a fé, sem as obras da Lei: “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo” (Gl 2.16). A igreja da Fenícia tinha sido fundada por crentes que tinham fugido de Jerusalém (At 11.19); Samaria tinha sido evangelizada por Filipe (At 8.5). Em vez de ficarem alarmados com as notícias da conversão dos gentios, esses crentes expressaram grande alegria. Os crentes espirituais, que não são desencaminhados por sentimentos sectários, sempre se alegram ao saber de conversões (Fp 1.15-18). 

sábado, 4 de julho de 2026

LIÇÃO 02 - A PORTA DA FÉ SE ABRE ENTRE OS GENTIOS.

Pb. Junio - Congregação Boa Vista II

 


                    TEXTO ÁUREO

"Porque o Senhor assim no-lo mandou: Eu te pus para luz dos gentios, para que sejas de salvação até aos confins da terra." (At 13.47)


                    VERDADE PRÁTICA

O propósito de Deus é que o Evangelho alcance todas as nações, revelando seu eterno desejo de salvar a todos.


LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: Atos 13. 44-52


                    INTRODUÇÃO


Tal como algumas outras revelações críticas relativas à missão dos gentios em Atos (c. 10:9, 31), esta revelação relativa à missão de Saulo e Barnabé ocorreu durante a oração – na verdade, uma oração concertada entre líderes espirituais e intelectuais de um movimento eclesial bem-sucedido. Além disso, embora Deus assuma a responsabilidade de chamar Barnabé e Saulo (para o chamado de Saulo, c. 9.15 16; 22.14-15; 26.16-18), o Espírito chama a liderança da igreja para compartilhar a responsabilidade de enviá-los. . Eles são “enviados” pelo Espírito (13:4), mas também por seus companheiros profetas e mestres que seguem o Espírito (13:3).

Excelente introdução! Você resumiu muito bem o itinerário da primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé. Esse trecho de Atos 13–14 é fundamental porque marca a transição da missão cristã: de um foco inicial nos judeus para uma abertura clara aos gentios.

📖 Alguns pontos importantes dessa viagem:

·        Antioquia da Síria: ponto de partida e base missionária da Igreja primitiva, mostrando que a comunidade estava organizada e sensível à direção do ESPÍRITO SANTO.

·        Chipre: primeira parada, onde Barnabé tinha raízes. Ali, o Evangelho alcançou tanto judeus quanto gentios, incluindo o procônsul Sérgio Paulo.

        Ásia Menor (Pisídia, Icônio, Listra, Derbe): cidades estratégicas, culturalmente diversas, onde Paulo enfrentou tanto receptividade quanto perseguição. Em Listra, por exemplo, foi confundido com um deus e depois apedrejado.

·        Mensagem central: a salvação em CRISTO não é exclusiva de Israel, mas destinada a todas as nações. O versículo que você citou (At 13.47) é a chave teológica dessa missão.

✨ Aplicação prática para hoje: Assim como Paulo e Barnabé obedeceram ao chamado de levar a luz de CRISTO “até os confins da terra”, nós também somos convidados a viver uma fé que ultrapassa fronteiras — culturais, sociais ou pessoais. O Evangelho continua sendo inclusivo e transformador, chamando-nos a ser testemunhas em nosso contexto.



                I.    A MISSÃO EM CHIPRE: A PRIMEIRA PORTA ABERTA ENTRE OS GENTIOS


1.    O envio missionário e o avanço da Palavra    -   O “envio pelo Espírito” remonta a 13:2–3, mas o restante de 13:4 aponta para a missão em Chipre de 13:5–12. Chipre é o lugar mais lógico para Barnabé e Saulo começarem (em vista de sua proximidade e conexões lá; c. os Onze em Jerusalém, 1:8; Lucas 24:47), e em Atos 13:5, a equipe começa em os lugares mais naturais de Chipre - nomeadamente, nas suas sinagogas. O significado de Barnabé e Saulo terem sido “enviados pelo Espírito Santo” (13:4) é bastante claro no contexto: eles oram comissionados por líderes orantes (13:3) que estavam obedecendo ao Espírito (13:2). ] 

A orientação sobre por onde começar, entretanto, era outra questão, e eles provavelmente prosseguiram inicialmente para o local mais lógico. Barnabé era originário de Chipre (4:36) e conhecia pessoas (ou teria contatos que os conheciam) que poderiam hospedá-los e convidá-los para alar em suas sinagogas (13:5). Embora Saulo e Barnabé trouxessem habilidades especiais, eles não trabalhariam em áreas totalmente não evangelizadas, como ariam mais tarde na Frígia; outros os precederam (11.19; c. 11.20). Além disso, até mesmo um tarsiano poderia ter ligações ali; Chipre tornou-se parte da província romana da Cilícia em 55 AEC, embora tenha se tornado uma província distinta em 27 AEC, talvez durante a vida do pai ou do avô de Paulo.

 Proclamar a Palavra de Deus com fidelidade significa anunciar e viver a mensagem bíblica de forma íntegra e verdadeira, sem distorções, como um “dispenseiro dos mistérios de Deus” (1 Co 4.1,2), que é responsável por entregar a mensagem sem acrescentar ou remover. Isso exige santidade na conduta, perseverança na fé e uma resposta pessoal e prática à fidelidade de Deus, que Ele demonstra não só através das suas promessas, mas também na forma como nos sustenta nas tentações, como ensina 1 Coríntios 10.13. 

Proclamar a Palavra de Deus com fidelidade significa comunicá-la de forma precisa e verdadeira, sem adulterações ou omissões, honrando a sua mensagem original (Mt 4.4; 2 Tm 3.16,17). A proclamação da Palavra de Deus exige preparo, reverência e fidelidade (Jr 23.28,29). Ela não se limita à pregação, mas estende-se ao testemunho de vida. Viver conforme os mandamentos de Deus e praticar a sua palavra — como, por exemplo, Maria fez ao acolher a palavra do anjo Gabriel — é um ato de fidelidade. Para proclamar com fidelidade, é preciso cultivar uma vida espiritual profunda mediante a oração e a contemplação, que proporciona a graça de doar-se ao próximo e cumprir a missão confiada por Deus. A missão em Chipre lembra-nos de que evangelizar exige movimento, planejamento e obediência à direção do Espírito Santo.

I. AVEGA DO DE SELEÚCIA (13:4) Os viajantes teriam descido o rio Orontes até Selêucia, no Mar Mediterraneo; Selêucia ficava a cerca de quinze milhas a oeste-sudoeste de Antioquia (um pouco menos em linha reta e um pouco mais, talvez dezesseis milhas, para um viajante), mas apenas cinco milhas ao norte de onde o Orontes desaguava no mar.  Seu ambiente mercantil proporcionou a Selêucia riqueza suficiente para que fosse fortemente fortificada, com templos caros e outras obras públicas (5.59.8). Na base da encosta da cidade, em terreno plano perto do mar, ficava o distrito comercial e um subúrbio fortemente fortificado (5.59.7).[155] A muralha da cidade, com mais de 11 quilômetros de extensão, cercava as partes superior e inerior da cidade.[156] Além desta área, o terreno da cidade pode não ter parecido hospitaleiro para os estrangeiros.


2.    O confronto com as trevas e a vitória do Evangelho    -    O governador da ilha, Sérgio Paulo, é descrito como “varão prudente”. Chamou a Barnabé e Saulo, porque desejava ouvir a palavra de Deus. Esta entrevista foi concedida em Pafos, capital da ilha. O procônsul romano tinha em sua companhia um impostor judeu que alegava possuir conhecimentos e poderes sobrenaturais. Isto não depõe contra a inteligência do procônsul. Sérgio Paulo, como muitos romanos, perdeu sua fé na brutal idolatria da tradicional religião romana. Ele tateava em sua busca de contato com o poder invisível que controla o destino dos homens.

E, como muitos, procurava tais conhecimentos através dos que alegavam possuir a mística sabedoria religiosa do Oriente (hoje pessoas cultas, decepcionadas com igrejas frias e nominais, procuram a religião através da Ciência Cristã, Teosofia e outras seitas místicas falsas, baseadas na filosofia pagã do Oriente). Um impulso induziu o governador a ter consigo o mágico judeu. Naturalmente o mesmo impulso o levou a mandar chamar os novos ensinadores. A terna sinceridade e poder espiritual dos apóstolos por certo estavam comovendo a cidade.

Elimas “se opôs” ou “resistiu” (ἀνθίστατο, talvez escolhido em parte por sua semelhança fonética com ἀνθύπατος, “procônsul”)[358] Paulo e Barnabé, mas Jesus havia prometido que seus inimigos não poderiam se opor a eles (Lucas 21:15), e Estêvão demonstrou esta vitória (Atos 6:10).[359] O leitor atento ao uso deste termo por Lucas esperará, portanto, que Elimas seja silenciado rapidamente (13:11). Ao tentar desviar alguém da é, Elimas era o tipo de pessoa através da qual surgiriam tropeços (Lucas 17:1-2), e ele estava imitando o papel de Satanás (c. 22:31-32; Atos 13:10). . O ato de ele ter procurado “desviar” o procônsul da é pode soar como se o governador á tivesse acreditado, mas no contexto sugere antes que ele estava tentando desviá-lo da crença na mensagem (Atos 13:12).[360] (Para “a é” como a mensagem cristã, vea 6:7; 14:22; 16:5; o contexto aqui se refere à mensagem que o governador estava procurando ouvir, 13:7.) Elimas sem dúvida esperava algum tipo de resposta, uma vez que a forma habitual de confronto incluía desafiar a honra de outra pessoa, seguida de uma tentativa de resposta, respondendo ao desafio. O vencedor seria decidido pelos ouvintes,[361] mas Elimas devia estar confiante de que, á tendo o ouvido do governador, teria sucesso.


3.    Confiando no poder transformador do Evangelho     -    O conflito prova ser não apenas uma competição acadêmica entre diferentes perspectivas religiosas, mas um confronto entre poderes espirituais: porque Paulo está “cheio do Espírito Santo” (13:9), ele é capaz de se opor a um “filho do diabo” ( 13:10). É neste momento crucial, disputando a é de um governador romano, que Paulo começa a usar seu nome romano. Se Lucas tem menos informações (ou menos interesse) sobre os ministérios cipriota e frígio de Paulo do que sobre grande parte do seu ministério posterior, este é, no entanto, um incidente demasiado dramático e, aparentemente, demasiado seminal para o futuro ministério de Paulo, para que ele o omita. 

Embora Paulo fosse provavelmente mais forte intelectualmente ou mais educado que Barnabé, [362] o ato de ele agir aqui em vez de Barnabé é atribuído apenas à atividade do Espírito[363] e pode estar relacionado ao seu chamado distinto para alcançar gentios e também Judeus. . O Espírito enviou Paulo e Barnabé nesta missão (13:2, 4); agora o Espírito capacita Paulo para enfrentar a oposição. [364] A próxima menção de serem cheios do Espírito descreve seus convertidos em outro local (13:52); o ministério do Espírito se multiplicou. O ato de Paulo “olhar atentamente” (ἀτενίσας) para Elimas reflete uma expressão favorita de Lucas (doze dos quatorze usos do NT), em duas outras ocasiões associada à operação de milagres (3:4; 14:9).

2. Castigo. Sob a inspiração do Espírito Santo e como agente de Deus (ver At 5.3-5), o apóstolo pronuncia a sentença do castigo divino: “Eis aí, pois, agora contra ti a mão do Senhor, e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo”. E assim foi: “E no mesmo instante a escuridão e as trevas caíram sobre ele, e, andando à roda, buscava a quem o guiasse pela mão”. A expressão “por algum tempo” indica a misericordiosa limitação do castigo. Oferecendo, também, oportunidade para o arrependimento. Esperamos que, ao abrir os olhos físicos, os espirituais tenham contemplado o Sol da Justiça (ver também At 9.8). 

3. Convicção. “Então o procônsul, vendo o que havia acontecido, creu, maravilhado da doutrina do Senhor”. Este poder espiritual, tão surpreendente e irresistível, produziu profunda convicção na mente do governador. O incidente é uma ilustração de como o missionário conseguiu “obediência dos gentios, por palavra e por obras; pelo poder dos sinais e prodígios, na virtude do Espírito de Deus” (Rm 15.18,19).

O impacto do evangelho é intelectual, espiritual e prático.

 Impacto intelectual – A fé cristã desafia e transforma a maneira como pensamos, oferecendo um novo entendimento sobre Deus, o mundo e nós mesmos (Rm 12.2; 2 Co 10.5), incentivando a renovação da mente e a submissão dos pensamentos a Cristo, indicando que o evangelho opera uma transformação intelectual. 

Impacto espiritual – Promove uma transformação espiritual, ou seja, no interior do ser humano, por meio da graça de Deus, levando-o à conversão, ao crescimento espiritual e a uma nova vida em Cristo (2 Co 5.17). 

Impacto prático – Pode ser observado na transformação pessoal, como mudança de comportamento, promovendo uma vida mais justa, ética e altruísta. Nas relações interpessoais (familiares, amizades, comunidade). Na área social (prática da justiça social, compaixão pelos necessitados, na busca pelo bem comum). Quanto à nossa missão e 14 serviço ao próximo (partilha das Boas Novas de salvação, levando esperança e transformação a todas as pessoas) (Mt 7.24-27; Jo 13.34,35; ; Lc 11.27,28; Tg 2.14-26; 1 Jo 2.3-6).


            II.     A MISSÃO EM ANTIOQUIA DA PISÍDIA: O EVANGELHO QUE ILUMINA


1.      A exposição apostólica que revela Cristo nas Escrituras      -     A cidade cresceu em magnificência e funcionou como centro administrativo para o sul da Galácia; os habitantes podem muito bem ter se vangloriado do status de sua cidade honrada (c. Atos 13:50).[610] Em meados do primeiro século EC, os visitantes podiam comparar a arquitetura e as esculturas da cidade com as de Roma; o mais impressionante oi o templo de Augusto na praça da cidade. Um portal de três arcos (um propileu) ligava a colunata “Rua Tibério” (Tiberia Platea) com uma escada que conduzia à praça principal, concluída provavelmente logo após a chegada de Paulo. O rico e elaboradamente decorado templo de Augusto ficava na extremidade leste da praça. Um dos fóruns da cidade recebeu o nome de Augusto e o outro de Tibério.[613] A casa de banhos, o teatro e outros locais oram escavados.[614] A rua principal, que corria de norte a sul, abria-se no extremo norte para uma ampla área que eventualmente abrigou um edifício de fonte pública, construído talvez algumas décadas depois da visita de Paulo.

(7) Religião em Antioquia 

Embora os residentes de Antioquia adorassem múltiplas divindades (c. Gálatas 4:8-10), dois objetos de adoração dominavam completamente a sua atenção.[637] Primeiro, era um amoso centro de adoração ao deus Mēn, a divindade padroeira da cidade; originalmente tinha seu próprio sacerdócio de Mēn Askaēnos, mas este oi destruído (Estrabão 12.8.14); um templo de outro Mēn permaneceu em território antioqueno (12.3.31).[638] Nos dias de Paulo, dois templos helenísticos ficavam dentro do recinto sagrado de Mēn (perto do templo imperial); centenas de dedicatórias de culto a Mēn Askaēnos oram recuperadas lá.   Na época de Paulo, porém, o local de culto que dominava o centro urbano de Antioquia era, como observado acima, um santuário imperial.[647] Os colonos romanos trouxeram outros cultos romanos, mas nenhum se comparava ao culto de Augusto e sua família; Augusto oi homenageado como o “fundador” da colônia.[648] O culto imperial, com suas celebrações cívicas em dias e meses especiais (c. Gl 4,10), regulou grande parte da vida pública em Antioquia, tornando os compromissos incompatíveis dos monoteístas anicônicos inescapavelmente óbvio.[649] Antioquia da Pisídia era uma colônia romana, orgulhosa do status romano que esta honra conferia aos seus próprios cidadãos (ver comentário em Atos 13:14). Isto significava que a maioria dos seus cidadãos também estariam ansiosos por demonstrar a sua lealdade no templo imperial da cidade. O templo imperial era tão grande que Paulo o teria visto quilômetros antes de chegar à colônia enquanto viajava pela Via Sebaste.[650] Um “templo de pódio e um propileno” constituíam o oco do santuário; esculturas comemorando os triunos de Augusto decoravam o edifício, “datadas de 2–1 aC”. [651] Tibério iniciou o proeto de construção, e provavelmente ainda estava em andamento sob Caio e no início do reinado de Cláudio e, portanto, apenas recentemente concluído (se ainda concluído) quando Paulo chegou.[652] Os sacerdócios romanos de Antioquia começaram na fundação de Antioquia ou no primeiro século EC, e depois persistiram por séculos.


O texto não indica como as autoridades reconheceram Paulo e Barnabé como potenciais oradores. Vários atores são possíveis. Primeiro, numa cidade com uma comunidade judaica de tamanho limitado, a chegada de dois judeus de ora da cidade à sinagoga seria reconhecida, o que poderia ter levado a uma investigação sobre a sua profissão ou formação. O treinamento de Paulo em Jerusalém (22:3) teria eito dele um candidato excepcional para orador convidado nesta comunidade judaica relativamente remota.

 Em segundo lugar, alguns estudiosos sugerem que os professores, tanto judeus quanto gentios, usavam roupas especiais que indicavam seu status,[678] embora não esteja claro se Paulo e Barnabé usavam tais roupas.[679] 

Terceiro, não há nenhuma sugestão neste versículo de que Paulo e Barnabé chegaram à cidade no sábado (quando, presumivelmente, estariam descansando em vez de viajando, especialmente se desejassem ser ouvidos nas sinagogas locais). Se á tivessem chegado, provavelmente á teriam eito contato com a comunidade da sinagoga e seriam alojados com um colega judeu, em vez de numa pousada (c. 17.5; ver comentário em Atos 16.15). A sua entrada na sinagoga parece ser no primeiro sábado após a sua chegada, e agora provavelmente á começaram a fazer contactos e são conhecidos por serem da “Terra Santa” e bem versados na Torá.

 Quarto, Paulo e Barnabé poderiam ter oferecido sua disponibilidade de antemão; Afinal de contas, Lucas não está fornecendo um relato passo a passo. Finalmente, Barnabé era um levita (4:36), e se isso fosse conhecido ele poderia ter sido convidado, optando por submeter-se a Paulo como melhor orador (14:12).[680] A tradição posterior, provavelmente refletindo preferências mais gerais, especificou que aqueles que convocavam leitores deveriam dar primeira preferência aos sacerdotes e depois aos levitas.[681] Mesmo além de Barnabé ser um levita (talvez unto com alguns membros regulares), tais práticas podem ilustrar a tendência de submeter-se àqueles que se espera que conheçam melhor a lei.

O resumo de Lucas do testemunho de João (13:25) começa com uma importante pergunta retórica (τί ἐμὲ ὑπονοεῖτε εἶναι;)[832] não contada nas perguntas do Evangelho sobre a identidade de João (Lucas 3:15–16; c. João 1:19– 23) e talvez modelado (consciente ou inconscientemente) após a pergunta de Jesus sobre sua identidade (Lucas 9:20, τίνα με λέγετε εἶναι;) para sublinhar o contraste entre as duas figuras. A submissão de João ao papel de Jesus não é simplesmente um adiamento educado[833], mas antes um reconhecimento da superioridade de Jesus.[834] A proclamação da vinda de João[835] também revela a sua submissão. As tarefas mais servis desempenhadas por um empregado doméstico diziam respeito aos pés do patrão, por exemplo, lavar os pés.[836] Da mesma forma, os servos carregavam sandálias para seus senhores ou desabotoavam as tiras das sandálias;[837] pessoas de status esperavam que outros tirassem suas sandálias[838] ou tivessem escravos para calçá-las. [839] Os mais ricos podem trazer um escravo para substituir seus sapatos de uso externo por sapatos de casa durante a refeição.[840] (Para mais informações sobre sapatos e sandálias antigas, veja o comentário em Atos 12:8.) Lidar com os pés era a única atividade servil que era muito humilhante para os discípulos judeus realizarem para seus professores.[841] Em outros aspectos, os professores antigos muitas vezes esperavam que os discípulos funcionassem como servos,[842] mas a única ressalva dos rabinos posteriores foi que, ao contrário dos escravos, os discípulos não cuidavam das sandálias do professor. [843] João está, portanto, afirmando ser indigno de ser servo daquele que vem. Esta é uma afirmação cristológica bastante notável quando consideramos que a Bíblia Hebraica e a tradição posterior chamam regularmente os profetas israelitas de “escravos de Deus”,[844] aplicando também o título a David,[845] Moisés,[846] aos patriarcas,[ 847] e Israel como um todo;[848] outros ouvintes antigos também teriam recebido a imagem de ser escravo de Deus como alguém de grande honra.[849] Em contraste, o profeta João aqui afirma que é indigno de ser escravo de Cristo. 

 PERDÃO ATRAVÉS DA FÉ (13:38–39)

 Depois de provar que a ressurreição de Jesus cumpre as Escrituras (e antes de notar que a rejeição da mensagem por parte dos seus ouvintes também poderia cumprir as Escrituras), Paulo ala do perdão através da é. Aqui, também, Paulo presumivelmente se baseou nas Escrituras (como Gênesis 15:6 [Romanos 4:3; Gálatas 3:6; também Tg 2:23; 1 Clem. 10.6; Cel. 13.7]; ou especialmente Hab 2:4 [c. Rm 1:17; Gl 3:7; também Hb 10:38], no próprio contexto do versículo de Habacuque citado em Atos 13:41), mas é omitido no resumo de Lucas. “Portanto” em Atos 13:38 pode conectar o perdão com a esperança da ressurreição, ligando a esperança futura dos crentes com a ressurreição/vindicação de Jesus (13:33, 35). (“Conhecei, pois” é a linguagem convencional na exortação.)[923] O contexto de Is 55:3 (citado em Atos 13:34) pode sugerir outras conexões omitidas no relato mais resumido de Lucas; Deus perdoará aqueles que se voltam para ele (Is 55,7).[924] O perdão azia, portanto, parte da promessa complexa: a promessa davídica de um Salvador (Atos 13:23); a mensagem de salvação nos profetas (13:26 27), conforme evidenciado pelo contexto de, por exemplo, Isaías 55 (parte da qual oi citada em Atos 13:34); e a promessa aos antepassados (Atos 13:32). A prometida restauração escatológica de Israel ao favor de Deus estava agora disponível através do evento escatológico da ressurreição de Jesus. (O perdão pregado aqui é a salvação pregada em 13:26, 32.) Assim, enquadra-se tanto no seu contexto lucano como no contexto dos textos mencionados mas não desenvolvidos por Lucas (o que poderia implicar uma fonte mais completa), levantando novamente a questão da até que ponto o discurso reflete a linguagem lucana e/ou paulina.

 ADVERTÊNCIA CONTRA A INCREDULIDADE (13:40-41) 

Um apelo para continuar ouvindo (Atos 13:40) era uma boa forma retórica (por exemplo, Cic. Verr. 2.3.5.10; ver comentário em Atos 2:22). Assim como as advertências dos profetas sobre a refeição de Jesus oram cumpridas pelos líderes de Jerusalém que não as entendiam (Atos 13:27), os ouvintes de Paulo deveriam tomar cuidado para que outras advertências proféticas não fossem cumpridas por eles. Esta passagem ilustra a interação entre o plano soberano de Deus e a responsabilidade humana; alguém cometerá a má ação, mas deve-se tomar cuidado para que não seja você mesmo (c. especialmente Lucas 17:1; 22:22; talvez 21:21–22). Lucas usa regularmente a rase comum “os profetas” (Atos 13:40; em outros lugares, por exemplo, Lucas 16:29, 31; 18:31; 24:25, 27, 44; Atos 3:18, 24), mas o termo é certamente apropriado aqui, pois ele cita o rolo dos profetas, os doze profetas “menores” formando um único livro (c. At 7,42; 15,15).[1063] Embora não fosse incomum passar da Torá para os profetas (como em Atos 7:42-50), a localização desta citação no final (13:41) não deveria nos induzir a subestimar seu significado para o discurso. Pode funcionar como um gnomo de fechamento, o que era comum em discursos.[1064] Às vezes, os textos centrais mais significativos apareciam no final de uma homilia, como acontece com todas as homilias em Pesiq. Rab Kah. 16, a maioria dos quais conclui com Is 40:1 (quer tenham sido citados anteriormente ou não).


2.    A rejeição dos judeus e a tristeza de Paulo diante da incredulidade (At 13. 44-45)     -   A grande tristeza e contínua dor no coração que Paulo sentia (At 9.2) devia-se à condição espiritual dos judeus que, pela dureza do coração, continuavam separados de Deus e distantes da salvação. Eles não reconheciam que as Escrituras tiveram o seu cumprimento no Senhor Jesus e que Ele era o Messias anunciado pelos profetas e, por essa razão, rejeitaram-no. A tristeza de Paulo por causa da incredulidade dos judeus encontra-se em Romanos 9.1 5. Nesse texto, Paulo declara a sua imensa tristeza e angústia constante pelo sofrimento do seu povo, os israelitas, que rejeitaram o Messias e a salvação oferecida por Deus. 

Essa dor contínua que Paulo trazia na sua alma por causa dessa situação era tão profunda que ele chegou a dizer que poderia desejar ser maldito (separado do Salvador) por amor a eles, enfatizando o sofrimento que ele sentia se isso tivesse algum proveito para livrar o seu povo da destruição. Obviamente que ele sabia que isso não teria nenhum valor, pois a salvação é individual, mas o que ele quis demonstrar era o seu grande desejo de ver os seus compatriotas salvos. O verdadeiro homem de Deus sofre ao ver as pessoas rejeitarem a salvação, pois sabe do terrível sofrimento que as aguarda. O seu sonho de salvar almas é tão grande, que ele abre mão de tudo para dedicar-se à obra do Senhor.

 ADVERTÊNCIA CONTRA A INCREDULIDADE (13:40-41) 

Um apelo para continuar ouvindo (Atos 13:40) era uma boa forma retórica (por exemplo, Cic. Verr. 2.3.5.10; ver comentário em Atos 2:22). Assim como as advertências dos profetas sobre a refeição de Jesus oram cumpridas pelos líderes de Jerusalém que não as entendiam (Atos 13:27), os ouvintes de Paulo deveriam tomar cuidado para que outras advertências proféticas não fossem cumpridas por eles. Esta passagem ilustra a interação entre o plano soberano de Deus e a responsabilidade humana; alguém cometerá a má ação, mas deve-se tomar cuidado para que não seja você mesmo (c. especialmente Lucas 17:1; 22:22; talvez 21:21–22).

 Lucas usa regularmente a rase comum “os profetas” (Atos 13:40; em outros lugares, por exemplo, Lucas 16:29, 31; 18:31; 24:25, 27, 44; Atos 3:18, 24), mas o termo é certamente apropriado aqui, pois ele cita o rolo dos profetas, os doze profetas “menores” formando um único livro (c. At 7,42; 15,15).[1063] Embora não fosse incomum passar da Torá para os profetas (como em Atos 7:42-50), a localização desta citação no final (13:41) não deveria nos induzir a subestimar seu significado para o discurso. Pode funcionar como um gnomo de fechamento, o que era comum em discursos.[1064] Às vezes, os textos centrais mais significativos apareciam no final de uma homilia, como acontece com todas as homilias em Pesiq. Rab Kah. 16, a maioria dos quais conclui com Is 40:1 (quer tenham sido citados anteriormente ou não).


3.    A porta da fé aberta aos gentios pela graça de Deus (At 13. 46-49)     -       Quando os gentios que a sinagoga não havia alcançado responderam agora à mensagem de Paulo (13:44), aparentemente porque ele exigia apenas é no Deus de Israel, sem conversão total à cultura e etnia judaica (13:38-39), grande parte da sinagoga respondeu com hostilidade (13:45). Paulo então se voltou para os gentios (13:46-47), para a alegria dos gentios (13:48) e para o aborrecimento adicional do povo judeu local de influência (13:50).  

A hostilidade de alguns membros da sinagoga aqui (13:45) estabelece um padrão para grande parte do ministério público subsequente de Paulo (o próprio testemunho de Paulo deixa aberta a possibilidade de que ele tenha enrentado tais conflitos mesmo antes deste ponto histórico, 2 Coríntios 11:24). O ciúme era um motivo comum para atribuir aos inimigos (por exemplo, Jos. Ag. Ap. 1.213, 222, 225; ver comentário em Atos 5:17), e Lucas às vezes o atribui aos líderes judeus como a causa de sua hostilidade ( Atos 5:17, que emprega a rase idêntica ἐπλήσθησαν ζήλου 17:5), seguindo o padrão da rejeição de José pelos patriarcas nas Escrituras (7:9). Para ἀντιλέγω, veja também Lucas 2:34; 20:27; Atos 28:19, 22, em cada caso com pessoas falando contra a verdade.[1092] O ato de Paulo ter questionadores não é de todo surpreendente; os desafiantes frequentemente incomodavam os oradores durante seus discursos. [1093] O motivo do ciúme neste caso não seria difícil de compreender. 

Estranhos - oferecendo é a toda a comunidade gentia local em termos que teriam parecido "baratos" para os judeus tradicionais que trabalharam entre eles [1094] - teriam parecido tratar levianamente, em nome e por meio de sua sinagoga, os tradicionais Os próprios anos de trabalho dos judeus como uma comunidade minoritária.[1095] Provavelmente consideravam os recém-chegados como violadores da sua hospitalidade, exigindo conformidade com novas crenças e provocando problemas.[1096] A perspectiva que se assume sobre o comportamento dos apóstolos aqui dependerá em grande parte da cristologia da pessoa. Mais importante, porém, teria sido a atenção imediata dos simpatizantes gentios que requentavam a sinagoga ao novo ensino.

 Os tementes a Deus podem ter tido um status social mais elevado com mais frequência do que os prosélitos, porque as pessoas de status tinham mais a perder com a conversão total.[1097] A sua presença nas sinagogas mostrava a sua atracção pela ética judaica e pelo monoteísmo e a sua vontade de questionar a sua própria herança religiosa. Ser acolhido como membros de primeira classe desta é, sem ter que se submeter à circuncisão e renunciar à sua própria identidade étnica, deve ter sido especialmente atraente para estes simpatizantes, ajudando a explicar a sua rápida conversão à é cristã.

[1098] O que atraiu os gentios, no entanto, poderia revelar-se ofensivo para os constituintes de base da sinagoga.[1099] Além disso, muitos destes aderentes gentios, embora incapazes de serem membros plenos da sinagoga, eram benfeitores cuja transferência de apoio (se a própria comunidade da sinagoga rejeitasse a mensagem apostólica) provocaria oposição (c. Atos 13:45, 50; 17: 12).[1100] Os gentios que á haviam dado o passo da conversão total (para os homens, incluindo a circuncisão)[1101] também podem não ter ficado satisfeitos com um padrão mais novo e “inferior” para outros gentios. Possivelmente os membros de status mais elevado da sinagoga (13:15) ou esses tementes a Deus de status elevado oram capazes de incitar outros com status contra os estranhos (13:50).



                III.      A MISSÃO EM ICÔNIO, LISTRA E DERBE: A FÉ QUE PERSEVERA


1.     Icônio: O testemunho ousado que enfrenta oposição (At 14.1-7)     -     Política e Local de Icônio (13:51) 

Augusto fundou uma colônia em Icônio, distinta e ao lado da polis grega, muito antes dos dias de Paulo. [1219] A polis grega Icônio recebeu o título de “Claudiconium”, talvez em algum momento do reinado de Cláudio;[1220] alguns estudiosos sugeriram que ela alcançou o cobiçado status de colônia romana nesta época (o que teria apresentado uma questão de interesse cívico imediato). orgulho), mas oi mais provável durante a refundação da cidade no reinado de Adriano (117-38 d.C.).[1221] (O status colonial á havia diminuído; Icônio tornou-se uma colônia completa sem qualquer influxo de romanos.) [1222] De qualquer forma, Icônio oi significativo, especialmente entre as cidades locais. Plínio, o Velho, chamou-a de urbs celeberrima, a cidade mais célebre dos Licaônios (NH 5.25.95).[1223] Sabe-se que Icônio incluía um teatro, patrocinado por patrocínio local e imperial na primeira metade do primeiro século EC. [1224] Um centro proeminente pelo menos desde o século IV a.C., a cidade “era claramente uma comunidade importante e presumivelmente agia como um centro político e económico para o sudeste da Frígia”. [1225] A sua zona rural fértil foi facilmente dividida “em lotes coloniais”. .”[1226] A população de Icônio era distinta das comunidades rurais do distrito, embora algumas delas também estivessem crescendo neste período.[1227] Estrabão observa que seu território ostentava recursos naturais muito superiores aos do resto da Licaônia; o rei da Gálata á manteve ali mais de trezentos rebanhos (Estrabão 12.6.1). Isentando explicitamente Icônio, Estrabão afirma que grande parte do resto da região dos “planaltos dos Licaônios” era “ria, desprovida de árvores e pastada por burros selvagens”, com pouca água e (onde havia água) a região mais profunda do mundo. poços para obtê-lo. Mesmo assim, o país produziu ovelhas suficientes para enriquecer alguns, “mas a lã é grosseira” (12.6.1 [LCL, 5:473–75]). Os romanos expulsaram ladrões e piratas da Licaônia e assim colocaram a terra sob controle romano (12.6.2). Sendo o cruzamento de várias estradas (incluindo a Via Sebaste e uma estrada de Éfeso), teve grande importância.[1228] Suas vantagens locais podem ter subido ao seu auge: ela se considerava a mais antiga das cidades, até mesmo pré-diluviana.