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| Pb. Junio - Congregação Boa Vista II |
TEXTO ÁUREO
"Porque eu sou contigo, e ninguém lancará mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade." (At 18.10)
VERDADE PRÁTICA
A graça de Deus é suficiente para sustentar o crente em meio ás adversidades.
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: Atos 18. 1-11
INTRODUÇÃO
A fundação da Igreja em Corinto, registrada em Atos 18, é um capítulo marcante na história do cristianismo primitivo, especialmente por evidenciar duas realidades fundamentais da missão cristã: a suficiência da graça de Deus em meio às adversidades e a importância de contextualizar a mensagem do evangelho sem comprometer a sua essência.
Enfrentando oposição e desafios numa cidade moralmente decadente e religiosamente pluralista, encontrou no poder e na graça divina a força necessária para perseverar, ao mesmo tempo que soube adaptar a sua abordagem para alcançar um público altamente diversificado. A graça não escolhe ambientes tranquilos; ela manifesta-se nos piores cenários. Como o Senhor disse a Paulo mais tarde: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Co 12.9).
Howard Marshall observa que Corinto e Efeso foram as duas cidades mais importantes que Paulo visitou no decurso da sua obra missionária. Corinto era um grande centro comercial, um mercado de fama mundial, que controlava o comércio em todas as direções, não apenas de norte a sul por terra, mas também de leste a oeste por mar. Essa grande metrópole tinha dois portos. Era uma cidade de navegadores e mercadores. Suas feiras estavam repletas de produtos estrangeiros. Por sua vez, Efeso, também famosa pelo comércio, era conhecida como o mercado da Ásia. Além disso, era um dos maiores centros religiosos da época, pois o templo de Diana, uma das sete maravilhas do mundo antigo, atraía turistas e religiosos de toda a parte. Essas duas cidades eram absolutamente estratégicas, e Paulo tinha os olhos bem abertos para perceber isso.
I. PAULO CHEGA A CORINTO (AT 18. 1-6)
1. Corinto riqueza material e miséria espiritual - A cidade era o centro político da Grécia, que, nessa época, superou Atenas em importância política e comercial. Corinto era capital famosa pela sua opulência, porém cheia de sensualidade e devassidão, sendo o maior centro de imoralidade de todo o Império Romano (1 Co 6.9-11) por abrigar templos dedicados a várias divindades (At 18.4), como Afrodite, a deusa do amor, cujo culto envolvia práticas sexuais. Estrabão, historiador, geógrafo e filósofo grego, revela que havia em Corinto cerca de mil prostitutas religiosas dedicadas a esse culto.
Corinto era uma metrópole cosmopolita (1 Co 1.2), isto é, uma grande cidade que se destaca pela diversidade cultural e pela presença de pessoas de diferentes nacionalidades e origens, comercialmente estratégica e espiritualmente caótica, com uma ambiência hostil à mensagem de santidade (2 Co 12.21). Mesmo assim, Deus escolheu esse lugar para plantar uma igreja forte (At 18.8), mas era ali que Ele tinha “muito povo”. Entretanto, Deus opera nos ambientes mais difíceis, e a sua graça é suficiente (2 Co 12.9). A graça não escolhe ambientes tranquilos; ela manifesta-se nos piores cenários. Nesse ambiente desafiador, Paulo chegou com temor e tremor, carregando não apenas o peso físico de perseguições anteriores, mas também a preocupação pastoral por todas as igrejas.
Em 1 Coríntios 2.1-5 na Nova Almeida Atualizada, Paulo explica que, ao pregar aos coríntios, não usou “sublimidade de palavras ou de sabedoria”, mas decidiu focar em “Jesus Cristo e este crucificado”, apresentando-se com “fraqueza, temor e grande tremor”, e não com linguagem persuasiva humana, mas com demonstração do Espírito e poder para que a fé deles dependesse do poder de Deus, e não da sabedoria humana.
GEOGRAFIA DE CORINTO
Embora Corinto tivesse prosperado séculos antes, em 146 a.C. a cidade foi completamente demolida pelos romanos como punição por sua resistência à ocupação romana. Em 44 a.C., Corinto foi reconstruída por ordem de Júlio César, que estabeleceu um grande número de colonos italianos ali. Graças a sua grande atividade comercial, a cidade logo atraiu milhares de habitantes cuja principal ocupação era o comércio. Em 27 a.C., César Augusto criou a província senatorial de Acaia, e Corinto passou a ser sua capital. Corinto não era apenas a capital da província da Acaia, mas também um grande centro urbano, com uma população estimada em duzentos mil habitantes.
Ficava bem próxima de Atenas, a grande capital da Grécia e capital intelectual do mundo. Corinto era banhada por dois mares, o Egeu e o Jónico. Cerca de 3 km ao norte de Corinto, ficava o porto de Léquio, que recebia navios da Itália, da Espanha e do norte da África. O porto de Cencreia, localizado 11 km a leste de Corinto, possibilitava o tráfego marítimo nos dois sentidos para o Egito, Fenícia e Ásia Menor. A cidade de Corinto recebia gente nova todos os dias e dela saía gente diariamente. Pessoas oriundas do mundo inteiro fervilhavam pelas ruas e praças. Corinto ficava no corredor do mundo. Era uma cidade cosmopolita, pois o mundo inteiro estava dentro dela.
MORALIDADE E ESPIRITUALIDADE
A razão moral. Embora Corinto fosse uma cidade extremamente intelectual, era também moralmente depravada. Corinto tinha recebido a alcunha de cidade mais depravada de seu tempo. Se tirarmos hoje uma radiografia da nossa sociedade, poderemos dizer: Que sociedade corrompida! Que sociedade poluída, maculada pela sensualidade, pela pornografia, pela imoralidade sexual! Mas a nova moralidade que testemunhamos hoje nada mais é do que a velha moralidade travestida com roupagem talvez um pouquinho diferente. A degradação moral de Corinto pode ser identificada pelas seguintes razões:
1. A prostituição. Em Corinto a religião se confundia com a prática sexual. Afrodite, considerada a deusa do amor, era adorada e tinha o seu templo-sede na Acrópole, a parte mais alta da cidade. Alguns estudiosos afirmam que aproximadamente dez mil mulheres trabalhavam nesse templo de Afrodite como prostitutas cultuais. No topo da mais alta montanha de Corinto, as sacerdotisas adoravam aquela divindade paga através da prostituição. Não bastasse isso, essas prostitutas cultuais desciam durante a noite para a cidade e se entregavam aos muitos marinheiros e turistas que ali aportavam. De fato, o ambiente era profundamente marcado pela prostituição e pela impureza sexual.
2. O homossexualismo. Em Corinto ficavam os principais monumentos a Apoio, deus grego que representava a beleza do corpo masculino. A adoração a Apoio induzia a juventude, não apenas coríntia, mas a juventude grega em geral, a se entregar ao homossexualismo. Talvez Corinto fosse o centro homossexual do mundo na época. Se você quer ter uma vaga ideia do que isso significava, lembre-se de como Paulo descreveu com cores vivas esse assunto em sua carta aos Romanos (Rm 1.24-28). E provável que o apóstolo tenha escrito sua carta aos Romanos em Corinto. Podemos imaginar, então, Paulo escrevendo sobre o homossexualismo após abrir a janela da sua casa e olhar para Corinto. Era uma cidade de práticas homossexuais despudoradas. Muitos membros da igreja de Corinto tinham vivido na prática do homossexualismo antes de se converterem (lC o 6.9). Essa era a situação dessa grande cidade.
A razão espiritual. Corinto tinha muitos deuses e muitos ídolos. Até hoje, quando se visita a cidade, é possível visualizar enorme gama de estátuas e monumentos dedicados aos deuses. Por isso, Paulo entende que aquela cidade precisava do Deus verdadeiro. A mente estratégica de Paulo encontra em Corinto uma sinagoga, uma ponte para o evangelho. A partir dessa ponte, Paulo leva o evangelho a toda a cidade. Examinemos agora alguns pontos de Atos 18.1-28 que nos chamam a atenção.
2. Temor humano e dependência da graça - Ao chegar a Corinto, após sofrer rejeições noutras cidades como Filipos, Tessalônica e Atenas, Paulo estava emocionalmente abatido e fisicamente cansado. Ele provavelmente estava deprimido, com medo, sentindo solidão e fraqueza, temendo que ali em Corinto o seu trabalho fosse interrompido por judeus opositores (como em Tessalônica e Bereia) ou pela mundanidade altamente carregada ao seu redor. Apesar do seu zelo, Paulo sentiu-se vulnerável. Mais tarde, ele escreveria sobre isso (1 Co 2.3). Isso mostra que Paulo também era humano, sujeito a pressões e inseguranças, especialmente diante da dureza espiritual de Corinto.
Apesar da presença de amigos na cidade, a permanência em Corinto seria um período de provações para Paulo, e o Senhor falou-lhe numa visão com palavras de encorajamento (At 18.9,10). A afirmação divina era apoiada por uma promessa tríplice: o Senhor estaria sempre com ele (Mt 28.19); nada lhe faria mal (não que nenhuma tentativa seria desferida, mas que ele sobreviveria (vv. 12-17; cf. Sl 23.4; Is 41.10); Deus tinha muito povo naquela cidade (vv. 10; cf. 1 Rs 19.18; Os 2.23). Essa promessa não apenas encorajou Paulo, como também revelou o quanto a graça divina é suficiente para sustentar o obreiro mesmo nos contextos mais hostis. Depois desse encorajamento, Paulo ficou ali um ano e seis meses ensinando entre eles a palavra de Deus, tempo incomum para alguém tão perseguido (At 18.11).
É natural o ser humano sentir medo, mas o Altíssimo socorre os seus, e não os deixa desamparados. Quando o servo crê nessa promessa, o medo, a insegurança, as dúvidas e as fraquezas são neutralizadas pela fé que ele possui. Ninguém pode silenciar a voz de quem é cheio do Espírito Santo. Isso prova que, quando Deus abre uma porta, ninguém fecha (Ap 3.7,8). E, quando Ele diz “não temas”, nossa fraqueza encontra abrigo na suficiência da sua graça. Pela leitura sequencial do livro de Atos, percebe-se que outro líder da sinagoga em Corinto chamado Sóstenes deve ter assumido o lugar de Crispo na sinagoga durante algum tempo, tendo depois também se convertido ao cristianismo. Paulo enfrentou forte oposição e ódio contra ele e contra o evangelho; por isso, passou a recear a sua permanência naquela cidade (1 Co 2.3). O apóstolo, contudo, recebeu do Senhor uma direção clara para permanecer firme. Essa firmeza não se apoiava em estratégias humanas, mas, sim, no reconhecimento de que a sua força vinha do Senhor. Em outro momento de fraqueza, o próprio Paulo ouviu isso de Deus (2 Co 12.9). Corinto foi, portanto, um laboratório da graça divina, onde a força de Paulo não estava na sua retórica, mas na dependência do Espírito Santo!
3. O início do ministério e a oposição na sinagoga - Como já citado, no ano 49 d.C., um ano antes de Paulo chegar a Corinto, o imperador Cláudio havia expulsado de Roma todos os judeus. Por essa causa, Priscila e Aquila deixaram a Itália e foram morar em Corinto. Esse casal era colaborador do ministério de Paulo e exercia o mesmo ofício do apóstolo, a fabricação de tendas. Em Corinto, Paulo foi morar com eles, trabalhando com as mãos para seu sustento (2Co 11.7-9). Paulo jamais deixou de pregar o evangelho por falta de sustento das igrejas. Nessas circunstâncias trabalhava para sua própria sobrevivência.
Esse não era o ideal de Deus, pois o princípio divino é:
...Aos que pregam o evangelho que vivam do evangelho (ICo 9.14). Porém, para evitar qualquer obstáculo à pregação do evangelho, Paulo se abstinha de receber o sustento material (ICo 9.12b).
Aos sábados, Paulo ia à sinagoga persuadir tanto os judeus como os gregos prosélitos acerca da fé em Cristo. Priscila e Aquila formavam um casal dedicado, que servia fielmente a Deus e arriscou a própria vida por Paulo (Rm 16.3,4). Ajudaram-no em Corinto (18.2,3) e em Efeso (18.18-28), onde a igreja se reunia em sua casa (ICo 16.19). O versículo 2 é o único trecho em todo o Novo Testamento em que Aquila é mencionado antes de Priscila (18.18,26; Rm 16.3; 2Tm 4.19). Justo González acredita que o fato de Priscila aparecer primeiro parece indicar que ela era mais importante na vida da igreja do que seu marido.
Tanto em Corinto como em Efeso, as maiores cidades da Acaia e Ásia Menor respectivamente, Paulo adotou praticamente a mesma metodologia: a) começou a falar na sinagoga na tentativa de “persuadir” os ouvintes judeus de que Jesus era o Cristo (18.4,5; 19.8); b) à rejeição dos judeus, deixando a sinagoga e passando a evangelizar os gentios (18.6,7; 19.9); c) a ousadia de Paulo foi recompensada por muitas pessoas que ouviram o evangelho e creram (18.8; 19.10); d) Jesus confirmou a sua palavra e encorajou o seu apóstolo - em Corinto através de uma visão e em Efeso através de milagres extraordinários (18.9,10; 19-11,12); e e) as autoridades romanas rejeitaram a oposição e declararam a legitimidade do evangelho — em Corinto através do procônsul Gálio, e em Efeso através do escrivão da cidade (18.12-17; 19.35-40).
Paulo precisou exercer o ministério de tempo parcial até a chegada de Silas e Timóteo em Corinto (17.14,15; 18.5). Esses obreiros trouxeram ofertas das igrejas macedônias a Paulo (2Co 11.8,9; Fp 4.15) e, com isso, o apóstolo deixou seu trabalho secular e dedicou-se exclusivamente à pregação do evangelho. O cerne de sua mensagem consistia em provar que o Jesus histórico era o Messias esperado pelos judeus. Na cidade de tantas ideias e tantas filosofias, Paulo pregou Cristo e este crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios; para os salvos, porém, sabedoria de Deus (lC o 1.23-25).
II. A CONTINUIDADE DA MISSÃO E O ENCORAJAMENTO DIVINO ( AT 18. 7-11)
1. A casa de Justo e o avanço do evangelho - A decisão de voltar-se para os gentios rendeu frutos imediatos. Tício Justo, homem temente a Deus que morava ao lado da sinagoga, acolheu Paulo, ao passo que Crispo, líder da sinagoga, converteu-se com toda a sua família. A partir daí muitos coríntios converteram-se ao Senhor e foram batizados. A mudança para a propriedade vizinha à sinagoga foi altamente bem-sucedida, pois muitos coríntios agora ouviam a mensagem, criam e eram batizados.
Saindo da sinagoga, certo homem gentio chamado Tito Justo, temente a Deus e frequentador da sinagoga, que deve ter-se convertido sob o ministério de Paulo, ofereceu um espaço na própria residência para o trabalho do apóstolo. A sua casa ficava ao lado da sinagoga (v. 7), o que colaborou com a missão de Paulo, dado a ele e à nova congregação um bom conceito na cidade, o que era muito importante. Houve uma grande repercussão entre os coríntios quando souberam que ele pregava na casa de um cidadão romano, e assim muitos se converteram. Como resultado do trabalho de Paulo, muitos habitantes de Corinto abraçaram o cristianismo, inclusive Crispo, principal da sinagoga (v. 8). Crispo de Calcedônia é um dos primeiros seguidores de Jesus no Novo Testamento. Ele é mencionado em 1 Coríntios 1.14 como um dos líderes da sinagoga de Corinto. Ele e a sua família foram convertidos ao cristianismo por Paulo de Tarso (At 18.8) e batizado pelo apóstolo em Corinto, na Grécia (ver 1 Co 1.14).
2. O medo do apóstolo e a palavra que fortalece - Diante da ferrenha oposição em Tessalônica e Bereia, cidades da Macedônia, Paulo partiu e foi pregar em outras localidades. Em Corinto, porém, aconteceu o contrário. A oposição dos judeus só aumentou sua determinação de permanecer na cidade e continuar seu trabalho. O próprio Deus apareceu a Paulo numa visão e lhe disse: ...Não temas; pelo contrário, fala e não te cales; porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal, pois tenho muito povo nesta cidade (18.9,10). Jesus já havia aparecido a Paulo na estrada para Damasco (9.1-6; 26.12-18) e lhe apareceria no templo (22.17,18). Paulo seria encorajado novamente pelo Senhor quando preso em Jerusalém (23.11) e, posteriormente, em Roma (2Tm 4.16,17). O anjo do Senhor também apareceria a Paulo, em meio à tempestade, para garantir a segurança dos passageiros e da tripulação (27.23-25). Um dos nomes de Jesus é Emanuel — Deus conosco (Mt 1.23), título ao qual ele faz jus.
Howard Marshall diz que a declaração indica a presciência divina do sucesso do evangelho em Corinto. Fortalecido por esta mensagem, Paulo podia aguardar o duplo cumprimento: a sua própria proteção contra a perseguição e a evangelização bem-sucedida. Alguns fatos acerca dessa visão merecem destaque.
Em primeiro lugar, uma ordem expressa de Deus. O Senhor é categórico e enfático ao apóstolo, diante das nuvens escuras da perseguição: Não temas; pelo contrário fala e não te cales (18.9). A perseguição produz medo. Após ser apedrejado em Listra e açoitado em Filipos, Paulo podia ser tentado a recuar diante de novos embates. Em vez de temer diante da oposição, Paulo recebe ordens para falar e não se calar. A pregação deve prosseguir mesmo diante da oposição mais implacável.
Em segundo lugar, uma promessa consoladora de Deus. O Senhor conforta o coração do apóstolo dizendo-lhe: ...Eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal... (18.10). A presença de Deus é o nosso escudo protetor. Quando estamos sob as asas do Onipotente, não precisamos temer. Quando estamos escondidos com Cristo, em Deus, nas regiões celestiais, não precisamos temer o ataque do inimigo. O cumprimento da profecia celestial ocorreu quando Gálio se tornou procônsul da província romana da Acaia. A narrativa de Lucas sugere que os judeus lançaram mão da oportunidade oferecida pela chegada de um novo governador para atacar Paulo. O ataque, porém, não prosperou diante do procônsul, e o evangelho recebeu legitimidade por parte da autoridade romana.
3. Graça suficiente, perseverança e transição - O Senhor revela que havia muitos eleitos naquela cidade e cabia a Paulo chamá-los por meio do evangelho: ... pois eu tenho muito povo nesta cidade (18.10b). A doutrina da eleição, longe de anular o ímpeto evangelístico da igreja, deve ser seu maior incentivo. O mesmo Deus que elege os fins, a salvação dos eleitos, também elege os meios, a pregação do evangelho, para chamá-los à salvação. O povo que Deus havia escolhido na cidade de Corinto desde toda a eternidade deveria ser chamado à salvação por intermédio do ministério de Paulo. O próprio Jesus garante que a obra de Paulo em Corinto dará frutos. O próprio Deus destina seu povo para a vida eterna (13.48), abre o coração das pessoas para a mensagem do evangelho (16.14) e as conduz à salvação. Leon Morris observa: “Elas ainda não tinham feito nada para serem salvas; muitas nem sequer haviam escutado o evangelho. Mas elas pertenciam a Deus. Claramente é ele quem as conduziria à salvação na hora certa.
A Bíblia diz que Deus conhece os que lhe pertencem (2Tm 2.19). Jesus conhece suas ovelhas. Ele as chama pelo nome, e elas o seguem. Aqueles que são destinados para a salvação creem (13.48). Nosso papel não é especular sobre a soberania divina na salvação, mas proclamar o evangelho a toda criatura. Nosso trabalho não é especular sobre a eleição dos outros, mas procurar com diligência cada vez maior confirmar nossa própria vocação e eleição (2Pe 1.10). Em vez de teorizar sobre o número dos eleitos, devemos esforçar-nos para entrar pela porta estreita (Lc 13.23,24).Encorajado pela visão, Paulo permaneceu um ano e meio em Corinto, ensinando a palavra de Deus. Sabemos que Deus abençoou o ministério de Paulo ali, porque havia crentes em toda a província da Acaia (2Co 1.1). No porto da cidade de Cencreia, alguns crentes fundaram uma igreja na qual Febe servia ao Senhor.
III. PAULO DIANTE DE GÁLIO: A GRAÇA QUE SUSTENTA EMMEIO À OPOSIÇÃO (AT 18. 12-17)
1. A acusação dos judeus e a proteção divina - A perseguição não cessou completamente, pois os judeus locais continuaram a opor-se à pregação do evangelho. Dessa forma, eles tentam condenar Paulo, levando-o perante as autoridades civis (vv. 12-17). Como predito na visão, Paulo tem sucesso na evangelização, mas também a mão do Senhor protege-o quando os judeus tentam suprimir a pregação do evangelho. Quando Gálio torna-se procônsul da província romana da Acaia, os judeus de Corinto, oponentes de Paulo, tiram vantagem da chegada de um novo governador atacando o apóstolo.
Gálio era irmão mais velho de Sêneca, o filósofo estoico que foi tutor de Nero durante um tempo. Uma inscrição encontrada em Delfos menciona Gálio como irmão de Sêneca, a qual nos possibilita datar a chegada de Gálio em Corinto mais ou menos no verão de 51 d.C. Delfos era a sede do santuário de Apolo, que estava situado defronte de Corinto, do outro lado do golfo de Corinto. Paulo aparentemente esteve na cidade em torno de um ano e seis meses (ver At 18.11). Isso quer dizer que Paulo deve ter chegado a Corinto no ano de 50 d.C. Essa é a única data que podemos precisar com exatidão no tocante a todas as viagens do apóstolo dos gentios.
No começo do governo de Gálio (ao redor de julho de 51 d.C.), os judeus em Corinto tentam arregimentar os poderes de Roma ao seu lado contra o movimento cristão. Juntos, os oponentes de Paulo arrastam-no perante o tribunal de Gálio. O tribunal (bema) era uma plataforma elevada na porta da cidade, da qual Gálio presidia e julgava (vv. 16,17). Os judeus tentaram impedir a obra de pregação de Paulo em toda a província (v. 13). Não está claro no versículo 13 se Paulo está sendo acusado de quebrar a lei romana ou a lei judaica, mas essa acusação tem a ver com a lei dos judeus. Se as leis romanas tivessem em questão, era esperado ouvi-los e sentenciá-los. O governador vê as acusações contra o apóstolo como brigas sobre a religião judaica (vv. 14,15). Antes que Paulo pudesse defender-se, Gálio o fez. Gálio mostra a sua impaciência para com os judeus, lembrando-os que Paulo não cometeu crime contra a lei romana.
2. O espancamento de Sóstenes e o alcance da graça - O que aconteceu a seguir não está claro, exceto que então todos agarraram a Sóstenes, chefe da sinagoga, e o espancaram diante do tribunal (cp. v. 8). Alguns manuscritos dão uma explicação sobre quem eram esses todos, mas a melhor versão (adotada por NIV e ECA) deixa o sujeito da ação oculto. Uma sugestão é que, a despeito de Lucas esquecer-se de indicar a mudança de assunto, foi a multidão que se lançou contra Sóstenes. Encorajados pela atitude de Gálio, os gentios demonstraram imediatamente seu desprezo pelos judeus. Outra interpretação seria que os próprios judeus é que bateram nele, como o contexto sugere. Segundo este entendimento do caso, tendo os judeus falhado tão ignominiosamente em conseguir a atenção da autoridade para suas acusações, desabafaram seu ódio em cima de seu próprio líder que apresentara o caso no tribunal. Outra alternativa seria que esse Sóstenes seja o mesmo de 1 Coríntios 1:1 (a coincidência na verdade é notável); embora ainda fosse o líder da sinagoga, teria demonstrado certa inclinação para o lado dos cristãos, à semelhança de seu predecessor Crispo, em razão do que sofreu a ira dos judeus.
O caso é que Gálio recusou-se a intervir, permitindo que se cometesse uma injustiça contra os judeus, ou destes contra um judeu em particular (como ele próprio teria visto o caso, se Sóstenes agora fosse um cristão). Vê-se pela literatura romana quanto os romanos desprezavam a vida e as questões judaicas (p.e., Cícero, Pro Flacco 28; De Provinciis Consularibus 5; Horácio, Sátiras 4.143; 5.100; 9:69; Tácito, 2.85). De tudo isso, algo positivo talvez tenha sobrevindo a Paulo. Ele deve ter percebido pela primeira vez o potencial total da proteção oferecida pelo estado romano. Se essa proteção era oferecida aqui, como seria na própria Roma? Assim foi que o Espírito teria semeado a semente de uma idéia que gradualmente se tornou o grande objetivo de Paulo (veja a disc. sobre 19:21).
3. A suficiência da graça na experiência de Paulo - A palavra “graça” ocupa lugar central na teologia bíblica. Ela não é apenas o meio pelo qual somos salvos, mas também a base sobre a qual vivemos e servimos a Deus. A experiência do apóstolo Paulo mostra que a graça não elimina dificuldades, mas torna o crente capaz de permanecer firme nelas. A doutrina da graça ocupa posição central na fé cristã. Não se trata apenas de um conceito teológico, mas também de uma experiência contínua na vida cristã. Desde a conversão até a glorificação, tudo é sustentado pela graça. O testemunho do apóstolo
Paulo revela que a graça de Deus não apenas salva, mas também sustenta, capacita e preserva os que foram alcançados por ela. Graça é o favor imerecido de Deus ao dar-nos o seu filho, que oferece a salvação a todos, e dá aos que o recebem como Salvador pessoal uma graça acrescentada para esta vida e uma esperança para o futuro (Rm 11.6; Ef 2.8,9). Graça, portanto, não é recompensa por mérito, mas iniciativa soberana de Deus. Em Cristo, a graça tornou-se visível, acessível e eficaz. A salvação é exclusivamente pela graça (At 15.11; Rm 3.24; Tt 3.5), e nenhuma obra humana pode acrescentar algo à obra de Cristo. A graça produz reconciliação com Deus (Rm 5.1,2; Cl 1.20).
A suficiência da graça para a vida cristã é manifesta da seguinte maneira: a graça sustenta na fraqueza (2 Co 12.7-10); a graça capacita para o serviço (1 Co 15.10; 2 Co 3.5; Hb 12.28); a graça consola em meio às aflições (Is 41.10; At 18.9,10; 2 Co 1.3,4); a graça garante perseverança (2 Co 4.7-9; 2 Tm 4.17,18); a graça ensina-nos a viver em santidade (Rm 6.14; Tt 2.11,12), gerando esperança (Rm 8.18; 1 Pe 5.10). A suficiência da graça é a certeza de que Deus é plenamente capaz de sustentar os seus filhos em todas as circunstâncias. Onde cessam os recursos humanos, a graça começa a agir. Onde a força humana falha, o poder de Deus aperfeiçoa-se. Que essa verdade conduza a Igreja a viver não na autossuficiência, mas na total dependência da graça que basta!
O apóstolo Paulo experimentou em Corinto a suficiência da graça de Deus mesmo diante de intensa oposição, perseguição, fragilidades pessoais e desafios espirituais (At 18.1-11; 1 Co 2.3-5). A cidade de Corinto, marcada pela idolatria e decadência moral, tornou-se palco de uma profunda experiência com o Deus que fortalece os fracos e sustenta os fiéis com a sua graça poderosa. Corinto foi, portanto, um laboratório da graça divina, onde a força de Paulo não estava na sua retórica, mas, sim, na dependência do Espírito Santo!
A graça de Deus gera coragem para continuar mesmo quando o coração está aflito. Paulo foi chamado a continuar pregando. A graça não apenas consola, mas também impulsiona. Não é a ausência de problemas que revela a suficiência da graça, mas a presença do Senhor em meio aos problemas.
Na sua Segunda Carta aos Coríntios, Paulo revela que orou três vezes para que Deus livrasse-o de um “espinho na carne”. A resposta divina foi marcante: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Co 12.9). Essa graça experimentada em Corinto, surgida num contexto de sofrimento e limitação, certamente se tornaria uma marca do seu ministério. Paulo, um homem usado poderosamente por Deus, suplica pela remoção de um espinho na carne. Deus, no entanto, não remove a dor; Ele concede algo maior: a graça suficiente. Isso nos ensina que a graça não é ausência de luta, mas presença de Deus no meio dela. Além disso, a graça capacita o crente para o serviço. Paulo reconhece que tudo o que realizou foi resultado da graça de Deus operando nele (1 Co 15.10). Não é a habilidade humana que sustenta o ministério, mas a graça divina. É ela que transforma servos frágeis em instrumentos eficazes.
Por fim, a graça também educa e transforma o caráter do crente. Conforme Tito 2.11,12, a graça que salva é a mesma que ensina a viver em santidade. Assim, a suficiência da graça não gera acomodação, mas compromisso; não produz negligência espiritual, mas obediência amorosa. A graça que sustentou Paulo foi a mesma que chamou e santificou aqueles irmãos (1 Co 1.2). Apesar de todos os obstáculos, Paulo permaneceu dezoito meses em Corinto e ali estabeleceu uma igreja. Como Paulo, precisamos reconhecer que é em nossa fraqueza que se aperfeiçoa o poder de Deus.
A dependência da graça de Deus é uma das verdades mais profundas e, ao mesmo tempo, mais negligenciadas da vida cristã. Muitos compreendem que a salvação é pela graça, mas passam a viver como se o crescimento espiritual e a perseverança dependessem exclusivamente do esforço humano. A Escritura, contudo, ensina que toda a jornada cristã é sustentada pela graça do início ao fim.
O apóstolo Paulo declara com clareza: “[...] pela graça sois salvos” (Ef 2.8). Entretanto, o mesmo apóstolo também afirma: “Pela graça de Deus, sou o que sou” (1 Co 15.10). Essa confissão revela que a graça não apenas nos alcança no momento da conversão, como também nos acompanha diariamente. Viver na dependência da graça é reconhecer que nada podemos realizar sem a ação contínua de Deus em nós. O próprio Jesus ensinou essa verdade (Jo 15.5). Essa declaração elimina qualquer ilusão de autossuficiência espiritual. O ramo não produz fruto por si mesmo; ele depende da videira. Da mesma forma, o cristão só pode viver de maneira frutífera quando permanece ligado a Cristo, confiando na sua graça. A experiência de Paulo ilustra claramente essa dependência. Ao enfrentar fraquezas, limitações e sofrimentos, ele ouviu do Senhor que a graça dEle bastava (2 Co 12.9).
Deus não removeu o espinho, mas concedeu graça suficiente. Isso nos ensina que a graça não é ausência de dificuldades, mas presença divina que sustenta em meio a elas. O episódio de Corinto reforça essa verdade. Em meio ao medo e à perseguição, Deus disse a Paulo: “Não temas […] porque eu sou contigo” (At 18.9,10). A presença de Deus foi a fonte da sua coragem e perseverança. Paulo permaneceu ali por longo tempo, não por causa da sua força, mas porque estava sustentado pela graça. Além disso, a graça também educa o crente. De acordo com Tito 2.11,12, a graça ensina-nos a negar a impiedade e a viver de modo santo. Depender da graça não é, portanto, viver de forma negligente, mas submissa; não é passividade, mas confiança ativa em Deus.
Concluímos que viver na dependência da graça é o chamado diário do cristão; é reconhecer nossa fragilidade, confiar plenamente no Senhor e caminhar sustentados pela sua misericórdia. Quando aprendemos a depender da graça, experimentamos a verdadeira liberdade espiritual e a plenitude da vida em Cristo
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AUTOR: PB. José Egberto S. Junio, formato em teologia pelo IBAD, Profº da EBD. Casado com a Mª Lauriane, onde temos um casal de filhos (Wesley e Rafaella). Membro da igreja Ass. De Deus, Min. Belém setor 13, congregação do Boa Vista 2.
Endereço da igreja Rua Formosa, 534 – Boa Vista - Suzano SP.
Pr. Setorial – Pr. Saulo Marafon.
Pr. Local: Pr. Selmo Pedro.
INSTAGRAN: @PBJUNIOOFICIAL
FACEBOOK: JOSÉ EGBERTO S. JUNIO
CANAL YOUTUBE.: https://www.youtube.com/@pb.junioprofebd7178 Toda semana tem um vídeo da Lição. Deixem seu Like.
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BIBLIOGRAFIA
Bíblia Almeida Século 21
Bíblia de estudo das Profecias
Comentário Exegético Vol. 2 Craig S. Keener - Editora CPAD
Estudo Livro de Atos - Myer Pearlman - Editora CPAD
Novo Comentário Bíblico Contemporâneo
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